Naquele dia, despediu-se da vida

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Fotografia © Imani Clovis | Cartaz © Laura Almeida Azevedo
Fotografia © Imani Clovis | Cartaz © Laura Almeida Azevedo

Naquele dia, a Maria estava ao lado dela na cama do hospital. Aquele hospital era já a segunda casa de ambas. Desta vez trouxe-lhe um novo produto de maquilhagem passível de ser usado em doentes com cancro. Queria ver a mãe sempre bonita e luminosa. Fazia questão de procurar todas as últimas novidades de maquilhagem, de lenços para o cabelo e tudo aquilo que pudesse pôr um sorriso no rosto da pessoa que amava com todas as suas forças.

Mas, naquele dia, a mãe estava especialmente contemplativa. Focava a paisagem que lhe entrava pela janela do quarto, como se nunca na vida tivesse observado árvores, flores e bancos de jardim. A Maria não sabia, mas ela estava a despedir-se da vida.

Agarrou-lhe a mão e perguntou-lhe os pensamentos. A mãe demorou-se na resposta. Ainda absorvia a paisagem. Desviou o olhar da janela e olhou a Maria.

– Filha, quero que ouças com muita atenção o que te vou dizer. – Engoliu em seco.

A Maria acenou afirmativamente com a cabeça. A mãe continuou.

– Sabes que vais ter momentos em que vais acreditar que a vida é injusta, cruel e só te quer ver sofrer; vais ter momentos em que te vais sentir perdida e eu posso não estar aqui para te ajudar a encontrar o teu rumo.

– Vais estar. Eu prometo-te. – Interrompeu com um nó na garganta que quase lhe cortava a respiração.

– Deixa-me terminar, querida, por favor. – Pede com a voz a fraquejar. – Posso não estar aqui e não quero que penses que o mundo se virou contra ti. Vê todas as barreiras que a vida te impuser como testes. Testes à tua força, à tua coragem, à tua ousadia, ao teu discernimento. Tu vais ter de te esforçar para superar cada uma delas e, muitas vezes, vais perceber que tens forças que não sabias existirem. Mas também tens de aprender a parar para prestares atenção aos sinais da vida. Às vezes, terás de repensar as tuas atitudes e as tuas escolhas. Compreende que mudar não é desistir. É crer com mais força ainda. Quero que vivas intensamente, mas guarda tempo para ti, para momentos a sós contigo. Às vezes, há sinais que estão mesmo ali, mas a correria dos dias é capaz de os esconder. – Faz uma pausa, porque a voz lhe fraqueja cada vez mais.

– Mãe, para. Não te esforces.

– Deixa-me terminar, meu amor. – Diz, encontrando a força que precisa no coração e não no corpo. – Vais encontrar pessoas boas, que te acrescentam, com quem podes aprender, mas também vais encontrar pessoas tóxicas que não vão ligar ao teu coração, que te vão magoar, que te vão fazer chorar sem se importarem. Por isso, peço-te que não cries demasiadas expetativas em relação às pessoas, porque nem todas vão merecer a tua confiança. Mas, filha, aprende também a perdoar quem merece o teu perdão. As pessoas erram, porque são isso mesmo. São pessoas e não robots formatados para o que é suposto serem. E lembra-te. Lembra-te sempre que, por cada pessoa que destrói os nossos sonhos, uma outra chega para os reconstruir. Promete-me que te vais lembrar sempre disso.

Com a força do coração, Maria suga as lágrimas que teimam em escorrer-lhe pelos olhos e responde-lhe:

– Prometo, mãe. Mas, agora, promete-me tu que vais descansar para ficares boa.

A mãe promete-lhe e despede-se dela. A hora da visita tinha terminado.

Maria entra no autocarro a caminho de casa. Senta-se no último banco para puder chorar à vontade. Era uma fortaleza em bruto quando estava no hospital, mas, quando saía, não precisava de fingir. Chegou a casa, jantou e foi, como ia todos os dias, pesquisar sobre novos tratamentos de cancro. Tinha fé e era isso que a impedia de desistir. Já passavam das onze da noite quando o telefone toca. Atende. Era do hospital. Do outro lado dizem-lhe com a voz a fraquejar.

– Lamento muito.

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RAQUEL FERREIRA, a engenheira
É de uma aldeia perdida no norte do país e ambiciona ser mestre em Engenharia Civil. No percurso, apaixonou-se pelas palavras e escreve. Sobre tudo. Sobre nada. Ainda não é tudo o que quer ser, mas luta todos os dias por isso.