Mulheres independentes

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Fotografia © Júlia Domingues | Cartaz © Laura Almeida Azevedo
Fotografia © Júlia Domingues | Cartaz © Laura Almeida Azevedo

Todas nós, mulheres, gostamos de ser consideradas mulheres independentes, aos olhos dos demais. Na maior parte das vezes, fazemos questão de lembrar – mais a nós do que aos outros – que é assim que pretendemos continuar. Independentes. Fortes. Donas do nosso nariz. Com pelo na venta. E é de cabeça erguida que comandamos a nossa vida. Muitas vezes, comandamo-la contra o que a sociedade estereotipou para nós. Mulheres independentes gostam pouco de seguir o «socialmente estipulado». É à conta de termos coragem de rasgar essas regras que temos carreiras, que continuamos a lutar pelos nossos sonhos e que, tantas vezes, fazemos o papel de homem e mulher. Já nenhuma mulher independente ousa dizer que se atrapalha, quando o carro tem de ir para a oficina ou quando precisa de arranjar o autoclismo lá de casa. Uma mulher independente quer-se, por natureza, forte. É uma mulher que não quebra. Que enfrenta, estoicamente, os obstáculos que o criador colocou, à partida, ao sexo masculino.

Mas, ao contrário do que se possa pensar, isto de querermos ser mulheres independentes, muitas vezes, vira-se contra nós. Claro que nunca o vamos admitir — até porque mulher independente não quebra. Mulher independente resolve. Mulher independente não se apega. Mulher independente quase não sente. Ou, pelo menos, é isso que os homens, de uma forma generalizada, pensam.

Uma mulher independente, por norma, procura para si pares iguais. Com o mesmo nível de maturidade, independência e resiliência para com a vida. O que nos atrai? O que vamos dizendo, à boca cheia, nas primeiras abordagens:

— Aprecio uma mulher independente.

E, nós como independentes que achamos que somos, retorquímos:

— Perfeito. Essa sou eu.

Tretas. Na vida real, não é nada disso que se passa. Nós, mulheres independentes, queremos, na maioria das vezes, descer dos saltos altos quando chegamos a casa e vocês, homens, desejam que as vossas mulheres nunca os cheguem, realmente, a calçar. Têm receio. De sermos tão independentes que não queiramos sequer ter-vos para nós. Têm medo que não caibam na nossa vida. Que sejam os únicos a sentir, a amar, a rir, a chorar. Com isto não estou a dizer que os homens não apreciem, verdadeiramente, uma mulher independente. Acho que tentam fazê-lo, genuinamente. Juro que acho. No entanto, na maioria das vezes, não conseguem. Uma mulher independente assusta um homem. Incute-lhes, de tal maneira, uma margem de insegurança que acabam por condenar toda essa independência que tanto elogiam. Os homens – com as merecidas exceções que têm de ser ressalvadas não sabem lidar com o facto de uma mulher ter o poder de escolha. De saber o que quer para si. De escolher, apenas, o que lhes faz sentido. Para as mulheres, ir passar um fim de semana na companhia de amigas, ir a um jantar a meio da semana, pegar no carro para ir a uma festa de aniversário, são coisas que lhes fazem todo o sentido. Contudo, para muitos homens continuarão a ser coisas que lhes fazem perder os sentidos. Assusta-os o facto das mulheres independentes também já poderem ir comprar tabaco e nunca mais voltarem.

Mas, aqui, que ninguém nos ouve, vou abrir uma nesga da caixa de pandora. As mulheres ditas independentes também quebram, não resolvem tudo e querem muito apegar-se. Precisam de descer dos sapatos de salto alto e calçarem as pantufas fofinhas que estão guardadas a um canto. Apreciam tirar a maquilhagem e ficarem sentadas no sofá sem lhes apetecer fazer o jantar. Gostam de ter um colo para ver um filme no domingo à tarde e precisam que lhes peçam que fiquem mais um bocadinho. As mulheres, ditas independentes, gostam que vocês homens que apreciam mulheres independentes nos digam que levam o carro à oficina e que é hoje que vão arranjar o autoclismo lá de casa. Que nos peçam para ficar. Não na vossa cama. Na vossa vida. Que não tenham medo que não voltemos, só porque fomos passar um fim de semana fora com as amigas.

Não nos vejam como adversárias. O que mais desejamos é ser vossas aliadas. Porque nós – aquelas mulheres independentes que vocês dizem apreciar –, mais do que independentes, continuamos a ser mulheres e, por vezes, só estamos à espera que vocês – homens que apreciam mulheres independentes – nos descalcem estes sapatos, tantas vezes, apertados e nos digam que gostam de nós sem maquilhagem.

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JÚLIA DOMINGUES, a JUX
Tem 38 anos. É solteira e igual a si mesma. Licenciou-se em Direito, sendo Jurista, mas a mais sábia aprendizagem foi aquela que a camaradagem desses tempos trouxe — e que dura, na maioria, até hoje. Tem um refúgio que gosta de pensar que é secreto: Braga, Gerês, a terra dos seus pais. Desde os 25 anos que diz: «Qualquer dia, piro-me de vez para o Norte. Quando for grande.» Mas nunca se pira, apesar de já ser grande. Adora tudo o que seja trabalhos manuais e o desenho é, sim, a sua verdadeira paixão. Tem fobia a andar de avião. E acredita no amor, embora não em coisas especiais. Afinal, não é preciso que ele venha de cavalo branco.