«Mas o mundo nos chama loucos»

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Ilustração/Cartaz © Laura Almeida Azevedo
Ilustração/Cartaz © Laura Almeida Azevedo

Faltava pouco para a meia-noite. Tínhamos saído há pouco do restaurante e passeávamos agora ao longo da avenida, que, apesar da hora tardia, fervilhava de gente. De um dos bares por onde passávamos ecoava a música da moda, daquela contagiante, que dá logo vontade de gingar. Vimos que não éramos os únicos com essa vontade. Vislumbrámos, por perto, várias pessoas que já se tinham deixado levar pela música.

Ouve-se «Loucos» de Matias Damásio. Sorrimos. Não podia ser mais adequada aos dois. Incitei-te a dançar ali mesmo. Convidei-te com olhar atrevido, começando a movimentar-me lentamente. Ondular suave, mas sensual. Surpreendido, olhas em volta, hesitante, mas aproximas-te de mim. Uma ou outra pessoa olha para nós. Nada que nos intimide.

«Mas o mundo nos chama loucos
Porque falamos [dançamos] sozinhos na rua
Nos chamam loucos»

A música tinha este efeito sobre mim. Libertava-me das amarras das minhas inseguranças, da minha timidez. Soltava a sedutora que vivia dentro de mim. E, inebriada por este feitiço tecido em pauta de música, deixava-me levar. Sentia-me leve. Sentia-me livre. Livre de pudores estabelecidos e imune a reprovações alheias.

Eu continuava a provocar-te. Tu, de sorriso maroto estampado no rosto, acabas por alinhar na brincadeira. Puxas-me para ti, decidido, e agarras-me com firmeza.

Eu sempre adorei dançar, mesmo sozinha. Mas preferia de longe dançar contigo. Dançar a dois. A combinação da música com o amor elevava-me a um prazer na dança até então desconhecido. Bastava deixarmo-nos conduzir pelas sensações despertas pelo ritmo no corpo.

O calor dos corpos, a intensidade da respiração, os corações que batem num compasso mais urgente de que o da música, leva a que nos desliguemos do mundo. Já não nos importamos com quem nos vê. Agora só estamos, eu e tu, de olhos fechados, a dançar no meio do nada, num ritmo só nosso.

Os meus movimentos desafiam-te e tu respondes à altura. Os nossos corpos conversam, coreografados pela cadência da tentação. Estamos absortos um no outro.

Entretanto, a música que toca já é outra. Sussurro-te ao ouvido. Depois, olhamo-nos e sorrimos de forma suspeita, cúmplices de um crime prestes a acontecer. Está na hora de ir embora.

Ao fundo, ouve-se a «Matemática do amor». Nem de propósito. Para a dança que se seguia, bastava somar um mais um e elevar o resultado de dois ao expoente do desejo. E, para essa dança, dispensávamos audiência.

«Te amo de um milhão
Raiz quadrada do meu coração
He he he…..»

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ANA PEREIRA, a inquieta
Nasceu numa noite estival, mas tem alma outonal. Convive com os números, mas encontra refúgio nas palavras. Aparenta serenidade, mas governa-a uma mente deveras inquieta. Se lhe perguntarem, é assim que se define a si própria. Aliás, estas foram palavras dela.