Sexo… sem amor

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Fotografia © Joanna M. | Cartaz © Laura Almeida Azevedo
Fotografia © Joanna M. | Cartaz © Laura Almeida Azevedo

Há qualquer coisa de tragicamente mágica em sermos arruinados por quem mais amamos. Era isso que dizia a mim mesma, assim que me encontrava no mesmo fundo do poço. (Até perdi a conta das vezes… Tal a desgraça em que eu me tornara.) E por quem? Por ele. E porquê? Porque eu acreditava veemente que era assim que tinha de ser. Que o amor era a tal doença incurável, o expoente da loucura, a guerra insana por que valeria sempre a pena morrer.

Jamais irei esquecer de como tudo se passava, de todas as vezes. A sensação de vê-lo aproximar-se de mim – de sentir as tais palpitações e o embrulhar do estômago, a que chamam de borboletas. (Tretas…). O sentimento intenso, um tanto voraz, avassalador que me possuía, de cada vez que nos víamos entre quatro paredes. Longe dos olhares, virávamos brutos, doentes, carnais. Puxões no cabelo, dentadas à flor-da-pele, arranhões ao longo das costas, tempestades vis entre lençóis. A miscelânea dos nossos suores e suspiros. A sede incontrolável de tê-lo mais fundo, de tê-lo mais perto… Como se nunca nada fosse suficiente.

Por mais que o tivesse junto a mim, ao ponto em que já nem sabia onde o meu corpo acabava e o dele começava. Por mais que o agarrasse entre as minhas coxas. Por mais que o segurasse contra o meu peito, que ele beijava e mordia, como se quisesse devorar-me. (Talvez queria… Assim o fez). E por mais que nos consumíssemos até não restar nada; fosse no quarto, ou no sofá, ou no chão… Nunca nada nos sabia a suficiente. (Tal doentio era o nosso amor…)

E a nossa ânsia em nos arruinarmos, em nos levarmos a ambos à loucura. Os berros bêbedos a ecoar por toda a casa. O whiskey barato do seu hálito contra o meu bafo a licor mais barato ainda. O fumo dos cigarros a turvar ambos os nossos rostos, que sabe-se lá desde quando haviam-se deixado de conhecer. Tamanha era a amargura das nossas palavras: tu és um estúpido e tu és uma merda, e vai-te embora, não apareças nunca mais. Mas nós nunca íamos. Partíamos todos os pratos e acabávamos, na mesma, dormindo sobre os cacos.

Era essa dança repetida. Esse ciclo vicioso que não nos deixava deixarmo-nos em paz. Era essa corrida para ver quem chegava primeiro ao fim. Era essa insistência no que há muito deixara de fazer sentido, por ser a única coisa que nos fazia sentir vivos. Eu… Ele… Só nos soubemos arruinar, enquanto o nosso Amor durou. 

Porque, de cada vez que estávamos juntos como um só, eu acordava cheia de feridas na pele, marcas dos seus dentes, e nódoas negras por todos os locais onde ele me agarrara. Porque, de cada vez que fazíamos amor, ele quebrava-me de tal forma e, depois, partia, nunca se preocupando em juntar os tais cacos. Ele partia e só o seu cheiro ficava, a alimentar a espera do seu regresso. Tudo sumia com ele… Menos as tais marcas que me doíam no corpo, e eu ria-me porque acreditava que o amor deveria ser feito sempre assim.

Mas que amor? Agora que penso nisso, nunca sequer o fizemos. Éramos demasiado brutos. Éramos demasiado loucos, dementes, possessivos e irados… Éramos monstros, que se escondiam entre noites alcoolizadas, entre lençóis gastos. Éramos as roupas espalhadas pelo quarto, junto à porta, como que adivinhando que ambos iríamos partir.

E o amor jamais pediria que nos partíssemos daquela maneira… Que Amor? O Amor nunca se faria assim. E eu descobri essa diferença demasiado tarde para me salvar da ruína em que esse me deixou.

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DANIELA ROSA, a que nunca se cala
Escreve desde que se lembra. Quiçá, por sempre ter sentido que um só mundo não lhe bastava. Portanto, é isso que ela faz, é isso que ela é: ela escreve. De si e para vocês, que a leem. Talvez, um dia, ela seja mais. Até lá, palavra a palavra, há de alcançar o seu sonho: o de, finalmente, se encontrar… Quem sabe? Pelo caminho, pode ser que a encontres: a sonhar, a escrever e a acreditar.