Os filhos dos outros

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Fotografia © Binyamin Mellish | Cartaz © Laura Almeida Azevedo
Fotografia © Binyamin Mellish | Cartaz © Laura Almeida Azevedo

Tinham vindo de uma festa de aniversário da nova cria de um casal amigo, e, mais uma vez, ela apercebia-se do quanto não estava preparada para tomar a decisão de ter um filho. Estava convencida de que isso os levaria a uma velocidade galopante para serem só um casal banal.

— Não gosto de pessoas que não saibam rir. Pessoas enfadonhas aborrecem-me de morte. Gente paradinha e sem vida deprime-me. Não quero isto para nós, entendes? – disse, pousando a mão no ombro dele.

Ele olhou pelo canto do olho, sorriu levemente. Sempre calmo, sempre paciente. No fundo, estava aterrado com a hipótese de ela os achar enfadonhos e fracos ao ponto de não sobreviverem à aventura de terem um filho, mas não a queria amedrontar.

— Não gosto de pessoas que não saibam gozar consigo próprias e com o outro, nas coisas mais simples. Principalmente, casais. Odeio casais mortiços. Têm um filho e “puff”, desaparecem no firmamento. Deixam de ter tempo, vida, interesses, cuidados com a relação e até com eles próprios. Olha a Isabel e o Francisco. Achaste a relação normal? Nem se olharam toda a noite. Quero dizer – pousou o copo, juntou as mãos como quem se prepara para rezar, e falou em tom agudo – menos quando o Gonçalinho conseguiu fazer o cocó todo dentro da fralda. Que bonito foi esse momento. Pensámos todos em emoldurar a fralda!

— Ahahahahah – a visão da fralda emoldurada fê-lo rir genuinamente, olhou para ela- tu não existes. Se calhar, são felizes à sua maneira, sei lá. O Francisco anda um bocado apático desde que tiveram o puto, é verdade, mas acho que também tem a ver com as horas de sono. Não deve ser fácil, não.

— Adoro saber que não somos assim, que rimos muito, que damos pequenos beijinhos, que andamos de mãos dadas, que olhamos um para o outro da mesma maneira, que damos abraços, que achamos infinita piada um ao outro e que é visível que há amor entre nós. Não percebo como poderia sequer ser de outra maneira que não a nossa. Achas que ia aguentar um pirralho a chamar-me infinitamente “mãe”? Mas eu lá tenho cara de mãe de alguém? – perguntou, fazendo uma careta.

— De mãe, não. Já cara de parva… é um facto – ainda não tinha acabo a frase já tinha levado com uma almofada pelo nariz.

Abraçou-a, fizeram ninho no sofá. Era tudo tão bom. Estar assim era bom, estar com ela era bom. Teria ela razão? Iam estragar tudo o que tinham construindo com um filho? Já tinha 36 anos e todos os amigos eram pais, ou estavam a tentar sê-lo. Estaria pronto? Queria muito ser pai, e depois do “susto” que tinham tido há dois anos, quando ela entrou em prantos porque pensou estar grávida, descobriu que ficava mesmo feliz com essa hipótese. Tinha de perguntar. Libertou-se do abraço.

— Algum dia vais estar pronta?

— Vou. Não sei como serei como mãe… Quero dizer, não sinto vontade, nem coisa parecida. Não sei se vou, mas acho que sim. Mas, sei lá, toda a vida me disseram que devia ser mãe – escondeu a cara no peito dele e apertou-o com os braços. — Sabes, não tenho medo de não ser mãe, mas no fundo tenho medo de não conhecer esse amor maior que dizem que é ser mãe. É isso. O conhecer esse tal amor. – Olhou para ele. — Vês porque não quero? Achas um motivo valido para ter um filho? Agora vou ter um filho porque não quero morrer sem conhecer uma coisa que, dizem, ser fabulosa? E se para mim não for? E se para nós não for?

— Há de ser, juro.

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ANDREIA FERNANDES, a destemida
27 anos. Sensível, engraçada e sarcástica. Convicta, mas sem fanatismos. Ansiosa e com uma queda para o dramático. Amante de leitura, música, cinema, pessoas de bom coração e mesas bem servidas. Sonha percorrer o mundo, e saber um pouco de tudo, sem nunca ter certezas absolutas de nada. Acredita piamente que a busca pela individualidade é infinita, que o amor se faz chegar de todas as formas e que não há limites para se ser feliz.