Quantos anos tenho?

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Fotografia © FreestocksOrg | Cartaz © Laura Almeida Azevedo
Fotografia © FreestocksOrg | Cartaz © Laura Almeida Azevedo

A minha idade? São todos estes anos, que me esqueci de ir contando. São as histórias, que tive que ir guardando. As rugas, que o tempo me desenhou. As lágrimas, que foram regando este jardim, onde tantas plantas foram crescendo.

A minha idade, essa, deu-me o privilégio de poder escolher. Mostrou-me a necessidade de continuar a sonhar. Disse-me que ainda havia muita coisa para acontecer. Confidenciou-me que viver só não basta. É preciso acreditar. É preciso não deixar de amar. O tempo não para. O ontem é um tempo distante e o futuro é o próximo passo para atingir o meu sonho.

A minha idade é esta calma que a alma aqui plantou. O atrevimento que o coração espalhou pelas estradas por onde caminhou. A ousadia que eu descobri e a esperança que ainda não perdi.

Perguntas-me quantos anos tenho?

Não sei! Não me quero cansar a contá-los. Pergunta ao meu destino. Talvez ele saiba.

Sabes, nunca fui boa em números e, quando tentei contá-los, sempre me perdi. Por isso, desisti. Eram mais do que os dedos das minhas mãos, e não me apeteceu continuar a contá-los, usando os dedos dos pés. Por certo, também não chegariam e ainda tinha que pedir as tuas mãos emprestadas para continuar a contagem. Por isso, deixei de me preocupar com esse pequeno detalhe. Vou gastá-los todos até ao último minuto. Vou ter que me apressar, antes que seja tarde e o meu prazo acabe.

A minha idade é esta imagem que podes ver no meu rosto, que nada esconde. É o espelho da minha alma, que só sabe refletir a minha maneira de sentir a vida. A minha idade vale o que vale. Eu sou assim e não quero mudar. Os anos ensinam-me, mas não me transformam.

Sim, parece que estou a ficar velha, mas isso não é um problema. É um privilégio.

Tenho mais idade e também mais sabedoria. Aprendi a fazer escolhas e a não ganhar ilusões. Quero caminhar sempre com um sorriso e virar as costas às tristezas.

Os meus anos, muitos na tua opinião, valem mais do que alguns tesouros, que tens guardados. Eles sabem a tua idade, mas esqueceram-se de viver. Guardaram os anos, pensando que iriam enriquecer. Eu gastei-os e hoje sou tudo isto que tu vês. Uma mulher com anos, um corpo com rugas. Uma miúda que não envelheceu, carregada de sonhos e de recordações de tudo o que viveu.

Que me importa a idade? Prefiro pensar no que vivi, nesses momentos que ninguém me rouba. Essas emoções, que ninguém saberá entender.

Quantos anos tenho?

Os que me quiseres dar. Os que os teus olhos conseguirem contar nas rugas que o tempo desenhou em mim. São apenas um número que nada vale, quando comparado com tudo o que eu vivi.

É essa a minha idade, o rosto das minhas memórias. A quantidade de histórias que te posso contar, tantas que, se calhar, nem tenho tempo para as acabar.

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ANGELA CABOZ, a miúda gira
Nasceu em Tavira há 49 anos. Desde a adolescência que é uma apaixonada pela leitura, pela escrita, pelo cinema e pela música. Escreve sobre sentimentos e, nas palavras, reflete a maneira de ver e de sentir o mundo. Em 2014, realizou um sonho: a publicação do seu livro «À procura de um sonho». Desde então, tem participado em várias obras coletivas.