A minha aldeia

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Fotografia © Diana Rosa | Cartaz © Laura Almeida Azevedo
Fotografia © Diana Rosa | Cartaz © Laura Almeida Azevedo

A minha aldeia não tem atualmente mais de vinte habitantes, mas nela reside um pedaço importante da minha história e da minha família.

Não é de fácil acesso a minha aldeia. Quem passa na estrada facilmente se distrai e não repara nela. Outrora, essa estrada não existia e a única maneira de lá se chegar era a pé, através dos caminhos de terra batida. Creio que, ainda hoje, não aparece em muitos mapas.

A minha aldeia não tem igreja ou sequer um café. Ela tem casas esquecidas, em ruínas, caminhos irregulares e de difícil acesso, e paisagens deslumbrantes. Tem cheiro a natureza e o barulho do silêncio, interrompido apenas pelo chilrear dos pássaros. Tem estórias e memórias em cada recanto. Tem cheiros e sabores únicos. Tem a Rua do Centro, que nos transporta ao âmago dos seus recantos. Tem um por do sol com cores próprias.

Este pequeno pedaço de terra, no meio da natureza, é o local onde nasceram o meu pai, os meus avós e bisavós, e muitos dos que lhes antecederam. E é também, em simultâneo, o local onde muitos deles nos deixaram, fazendo questão de perpetuar a sua marca, sentida até hoje.

É o local onde guardo memórias da minha infância. Da minha avó sentada, ao final da tarde, num banco pequenino de madeira, com o sol a dar-lhe na cara, e com as suas mãos enrugadas, a fazer queijos frescos, cujo sabor ainda não consegui sentir igual. É o local, onde ela, sentada no mesmo banquinho, me afagava os cabelos, e eu só desejava que o tempo parasse naquele instante. Era o local onde a família se reunia, e as brincadeiras com os primos não tinham fim. E era também onde se dormiam as sestas mais tranquilas e prazerosas de sempre.

A minha aldeia é o local onde volto menos vezes do que aquelas que deveria, pois, quando lá estou, sinto que pertenço àquele lugar. Um dia, também um pedaço meu ficará por lá. E talvez os que venham a seguir também possam sentir um pouco do que fui e da magia que, por lá, permanece.

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DIANA ROSA, a viajante
Tem 34 anos. Trabalha na área financeira, mas não é isso que a move. A grande paixão — aquilo que a faz vibrar — são as viagens: pelo mundo e pela vida, descobrindo novos lugares, experiências e emoções. Gosta da natureza, de ler, de praticar yoga e de pessoas. Busca ser feliz e realizar sonhos. E este desafio é um passo, inesperado, dado nesse sentido.