Vida, afinal, o que queres de mim?

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Fotografia © Sunset Girl | Cartaz © Laura Almeida Azevedo
Fotografia © Sunset Girl | Cartaz © Laura Almeida Azevedo

Levem-me a esperança. Escondam-me os sonhos. Tranquem-nos num cofre a sete chaves e deitem-nas fora. A esperança é a última que morre, mas a primeira que mata. Os sonhos elevam-nos, mas também nos atiram ao chão. Sem ilusões não existem desilusões. Sem expetativas não há dor. Dormência, talvez. Mas não há dor, nem sofrimento.

Não quero percorrer mais caminhos vãos, que só me levam a lado nenhum. Caminhos que terminam em becos sem saída, que me obrigam a voltar atrás e a recomeçar tudo de novo — muitas vezes de um ponto de partida ainda mais distante do que aquele de onde havia iniciado a minha caminhada. E para quê? Para provavelmente voltar a bater com o nariz em mais uma porta? Outra vez?

Desliguem-me as emoções. Deixem apenas ficar a razão. Amordacem-me a voz do coração. Deixem apenas ficar o motor a trabalhar. Talvez me digam que isto não é viver, mas e o que é estar numa vida que tudo te nega, onde andas rumo ao desengano, onde se choram constantemente perdas? Isso é viver?

Quero deixar de acreditar. Assim, já não me canso de esperar. Assim, deixo-me de lutas inúteis.

Estou saturada de frases feitas. As palavras podem variar, mas vão bater sempre ao mesmo. «O que é para ti, será teu.» «Se ainda não foi desta, é porque o melhor ainda está para vir.» «Se não alcançaste o que querias, é porque ainda não estavas preparada para o receber.» Cara vida, depois de morta já não será favor nenhum e não será, de certeza, a melhor altura para viver seja o que for.

Estou cansada. Se não faço nada, não me posso queixar de que não consiga. Mas, quando faço, falho sempre. Vida minha, queres-me de braços cruzados ou que continue a lutar? Podes dar-me um sinal de que estou no rumo certo? Um sinal claro, que nem água. Não um sinal dúbio, sujeito a mil e uma interpretações, que dependem do humor do dia.

Será que alguma vez terei direito a algo ou continuarei a ver tudo a passar-me ao lado? Continuarei a ver o comboio a passar, apanhando tantos pelo caminho e a deixar-me esquecida na estação? E, por mais que corra para alcança-lo, acabo sempre por tropeçar nos próprios pés e a ver-me ser ultrapassada por outros — alguns por mérito próprio, outros levados ao colo.

Para quando a minha vez?

A minha vida é uma guerra, é um campo de batalha em que todas as frentes jazem abandonadas por derrotas infligidas. Vou sendo forçada a recuar para as trincheiras porque os ataques não cessam. Não têm dó de quem já está ferido e precisa de tempo para recuperar. Não se compadecem do facto de os enfrentar sozinha.

Vida, ainda por aqui ando, ainda respiro. Não mereço um pouco mais de ti? Porque me condenaste? Que crime cometi? Atrevi-me a sonhar? Tive o desplante de acreditar? Permite-me, então, que me renda. Já não tenho forças para continuar, nem sei onde as ir buscar. Queres tirar-me o pouco que resta? Tira. Mas deixa-me em paz.

Vida, afinal, o que queres de mim?

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ANA PEREIRA, a inquieta
Nasceu numa noite estival, mas tem alma outonal. Convive com os números, mas encontra refúgio nas palavras. Aparenta serenidade, mas governa-a uma mente deveras inquieta. Se lhe perguntarem, é assim que se define a si própria. Aliás, estas foram palavras dela.