Porque sou budista?

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Fotografia © Carina Maurício | Cartaz © Laura Almeida Azevedo
Fotografia © Carina Maurício | Cartaz © Laura Almeida Azevedo

Tive educação católica, sou batizada e frequentei a catequese. Porque é assim no nosso País. Se assim não for, há uma espécie de rejeição da sociedade.

No entanto, sempre me questionei muito sobre a vida, sobre a existência de Deus, sobre quem decide o nosso destino, porque nos acontecem determinadas coisas, porque temos que sofrer tanto… Perguntas para as quais nunca obtive resposta.

Em 2005, quando me convidaram a ir a uma reunião budista, estava com uma depressão profunda. Desvalorizava completamente a minha vida. Nada me fazia levantar da cama. Não tinha um motivo para sorrir. A essa reunião fui eu e outra amiga minha. Quando ouvimos, pela primeira vez, um auditório cheio a recitar Nam-Myoho-Rengue-Kyo olhámos uma para a outra apavoradas e a pensar: «Onde nos viemos meter?» O primeiro pensamento natural é que se trata de alguma seita. Contudo, não fugimos. Ficámos a assistir a toda a reunião. Era um mundo novo, desconhecido, com conceitos novos que nunca ouvíramos. Porque para nós, ocidentais, uma religião de raízes orientais é toda uma nova aprendizagem. Nada daquilo nos foi incutido pela tradição, pela sociedade, nem pela educação. Certo é que todo aquele ambiente, aquelas pessoas, os seus relatos de experiência, nos comoveram, nos tocaram o coração. Como era possível que pessoas, com circunstâncias de vida tão difíceis, estarem felizes? Estarem a relatar tais eventos com lágrimas de alegria?

Saímos de lá com uma esperança renovada, com uma sensação de leveza e com uma alegria inexplicável. O que era, afinal, este budismo de Nichiren Daishonin?

Durante muitos meses, cética como sou, recusei-me a experimentar a prática. Assistia às reuniões, ouvia os outros a falar e sentia-me curiosa.

A minha mãe shakubuku, a pessoa que nos apresenta à prática, dizia-me sempre: «Carina, acredita em ti, acredita que podes ser verdadeiramente feliz, tal como a tua vida está agora!» E é apenas isto. Este budismo é apenas para sermos e fazermos os outros felizes.

Não compreendia porque uma pessoa que mal me conhecia poderia querer tanto a minha felicidade. Mas saber que havia uma pessoa que tinha esperança em mim fez-me sentir que, afinal, a minha vida tinha importância. Hoje devo a essa pessoa o melhor presente que recebi na minha vida – a minha prática budista!

Tal como referi, durante muitos meses recusei-me a experimentar a prática. E porquê? Porque, nesta prática, a responsabilidade da minha vida está nas minhas mãos. Tudo depende das minhas ações, pensamentos e palavras. O processo foi doloroso. Porque dói assumir a responsabilidade. Porque dói tomar decisões. Porque dói limpar toda a tristeza, toda a angústia, todo o mal que recebemos. Porque dói saber que depende apenas e só de mim. Porque já não podia culpar nada, nem ninguém, pelo meu estado de vida tão negativo. E é tão mais fácil deixarmos andar do que ter a coragem de tomar as rédeas da nossa vida. É mais fácil deixar os dias passar do que ir à luta pela felicidade. E estamos sempre a adiar a nossa vida. Eu estive muito tempo a adiar a minha vida. Porque não queria ter esse poder. Não queria ser eu a decidir. Não queria ter a responsabilidade pela tristeza que tomara conta do meu coração. E dói muito tomar esta consciência.

Por outro lado, associadas à dor, vieram as respostas às minhas perguntas. Estava a conhecer uma religião com a qual me identificava, porque não tinha que acreditar em algo que não via. Não tinha que adorar, nem rezar, nem pedir nada a um Deus que eu não via. Ao contrário do que a maioria das pessoas pensam, nós não adoramos um buda. E aí está a chave. Neste budismo, acreditamos que todos somos budas. Então, praticamos para podermos usar o potencial ilimitado do nosso estado buda – a sua coragem, força vital, sabedoria e compaixão. Desta forma podemos assumir o controlo da nossa vida, realizar os nossos sonhos e sermos felizes. E a vida de cada um de nós está simplesmente nas nossas próprias mãos.

Um buda, nos dias de hoje, é um ser humano comum que, ao compreender o seu potencial ilimitado, usa-o voluntariamente e encoraja os outros a fazerem o mesmo. A forma de experimentarmos este potencial é invocando Nam-Myoho-Rengue-Kyo. E é desta forma que conseguimos sentir felicidade absoluta, aquela que não depende de fatores exteriores, que não depende das circunstâncias de vida tal como ela se apresenta.

Muitas vezes não temos, aparentemente, nada de que nos possamos queixar. Temos saúde, um trabalho que gostamos, um companheiro que amamos, uma família que adoramos… Mas, lá no fundo, não estamos felizes. É aí que faço esta pergunta: Como está verdadeiramente o teu coração, o teu estado de vida, a tua felicidade interior? Este budismo destina-se a isso mesmo, a alcançarmos esta felicidade interior. Não se trata de milagres, de não ter problemas, de ter a vida facilitada, de não haver obstáculos. Nada disso! Trata-se de, mesmo perante as adversidades da vida, sentirmos alegria a cada dia. Trata-se de a cada momento termos a sabedoria, a coragem, a força de que precisamos para tomarmos ação no sentido de concretizarmos os nossos maiores sonhos. Trata-se de termos compaixão pelos outros para também serem felizes.

A vida não muda. Nós é que mudamos. Mudamos a nossa consciência perante a vida. Mudamos a nossa alegria de viver. Mudamos a aprendizagem que retiramos de cada acontecimento, mesmo que menos bom. Mudamos a nossa visão perante tudo aquilo que nos acontece e rodeia. Porque fazemos a nossa revolução interior.

A vida não muda. Nós é que alcançamos, em cada luta, vitória no coração.

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CARINA MAURÍCIO, a fotógrafa
É budista e conservadora-restauradora. É de riso e choro fáceis. Tem tanto de sensível, quanto de corajosa e lutadora. Adora fotografar, jogar ténis e viajar. Viciada em comida, é fã de comida italiana. Gosta de dormir, de café, de chocolate. Dançar? Pode ser a noite toda. Mas também gosta de ficar na ronha, em casa, entre filmes e pipocas. Adora o som da chuva a cair no inverno e o som do mar em dias de verão. Campos floridos enchem-lhe o olhar, assim como as cores das folhas do outono. Apaixona-se facilmente e é uma apaixonada pela vida. Uma geminiana pura.