Naquele dia, ela caiu

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Fotografia © Kristina Paukshtite | Cartaz © Laura Almeida Azevedo
Fotografia © Kristina Paukshtite | Cartaz © Laura Almeida Azevedo

Naquele dia, ela caiu. Caiu num poço fundo e escuro. Num poço que lhe cortou a respiração, que lhe asfixiou os sonhos. Naquele dia, ela caiu. E caiu tarde demais. Já devia ter caído mais cedo. Porque já devia ter percebido que a vida é um mar de rosas, mas que a maioria delas tem espinhos. Já devia ter percebido que não adianta fazer grandes planos para o futuro, porque a vida nos troca sempre as voltas.

Naquele dia, ela caiu, porque ele se foi embora. E, quando tu perdes o teu porto seguro, sentes que te sugam toda a essência do teu ser, sentes que te roubam o oxigénio de que necessitas para respirar. Quando perdes o teu porto seguro, sentes-te morrer.

Viviam perto demais, viviam um para o outro e foi isso que os fez perderem-se um do outro. Foram anos desta simbiose. Foram anos de corações descompassados de tanta cumplicidade. Mas tudo tem um tempo e aquele dia foi o tempo de seguirem caminhos diferentes. Não souberam mais um do outro. Eram tão cúmplices e, depois, odiaram-se. Odiaram-se por se terem deixado levar por aquela onda de amor que os engoliu. Não pelo amor que viveram, mas por só terem vivido o amor. Esqueceram-se que tinham amigos, que tinham família. Tinham-se a eles e acreditavam que era suficiente. Estavam tão enganados. Nenhum amor sobrevive assim.

Ela sentiu-se perdida. Ela ainda se sente perdida. Então, decidiu preencher os dias. Decidiu arranjar um part-time para conciliar com os estudos, inscreveu-se em workshops de todas as áreas possíveis e mais mil e uma coisas que lhe passaram pela cabeça. Os dias ficaram totalmente preenchidos. Tinha pouco tempo para pensar nas dores que sentia no coração. Mas – e há sempre um mas –, quando parava, quando interrompia esse ritmo alucinante, percebia que estava completamente perdida. Nada disso lhe preenchia o vazio do coração. Andava a enganar-se a si própria.

Começou a comer para esquecer e para se preencher, mas só preencheu o corpo. Podia ter sido o álcool, podiam ter sido as drogas, mas foi a comida. Engordou mais de uma dezena de quilos. Sentia-se, agora, uma estranha no seu próprio corpo. Ela não era assim. Ela não era aquela tristeza profunda. Ela sentia raiva de si própria e só devia sentir amor. Entrou numa depressão sem se aperceber. Não daquelas depressões de te fechares num quarto e não quereres ver ninguém. A dela era diferente. A dela fê-la tornar os seus dias verdadeiras maratonas, fê-la integrar dezenas de projetos para esconder do seu coração que não sabia que rumo seguir. Mostrou-se forte, mostrou que nada a afetava, quando toda ela era fragilidade. Mostrou sorrisos, quando o seu coração chorava. Criou a sua própria máscara. A máscara que a podia defender do mundo, das pessoas. Porque ela tinha medo das pessoas, tinha medo de se envolver emocionalmente. Tinha medo de criar laços que se poderiam quebrar. E ela não queria chorar, não queria sentir.

E eu gostava de terminar este texto dizendo que tudo passou e ela hoje é feliz. Mas – e há sempre um mas – não é verdade. Hoje, ainda nada passou. Mas todos estes momentos e angústias têm sido uma verdadeira descoberta da sua própria identidade. Está numa fase da vida em que anda a tentar compreender do que realmente gosta, o que realmente lhe arranca sorrisos involuntários do rosto, o que lhe causa tremores nas pernas e borboletas de ansiedade no estômago.

Naquele dia, ela caiu para, um dia, se levantar mais forte ainda. E ela, bem, ela sabe que esse dia está próximo.

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RAQUEL FERREIRA, a engenheira
É de uma aldeia perdida no norte do país e ambiciona ser mestre em Engenharia Civil. No percurso, apaixonou-se pelas palavras e escreve. Sobre tudo. Sobre nada. Ainda não é tudo o que quer ser, mas luta todos os dias por isso.