A criatura

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Fotografia © Benny Jackson | Cartaz © Laura Almeida Azevedo
Fotografia © Benny Jackson | Cartaz © Laura Almeida Azevedo

Os cavaleiros negros regressaram, afastaram toda a luz que eluminara todo o horizonte. Afastaram todas as esperanças da humanidade, revivendo uma vingança perpétua em torno de cada um — uma aura negra poisara-se, como um enorme lençol, na superfície do meu corpo; aqui me encontro embutido na escuridão. Vi o meu arco-íris desaparecer de novo. Vi a revolta ingrata instalada em mim próprio.

Vi nos seus olhos. Notei na sua respiração. O cerrar dos seus dentes mostrava apenas irritação. Senti o meu corpo com um horrendo peso e um sussurro ecoara até mim através do céu negro, que rapidamente se estendera. Eles estavam cá – estavam comigo. O medo do invisível tornara-me vulnerável. A força que mantivera, durante tanto tempo, voltara a diluir-se.

Encarei o olhar carregado dos treze cavaleiros, enquanto que as suas túnicas negras cambaleavam com o vento, enquanto cavalgavam até mim.

Estava indefeso.

Ajoelhei-me na areia das trevas e escolhi o pior. Louvei o pior e vi o meu melhor absorvido pelas nuvens – o que existe de tão cruel capaz de absorver tal energia?

Eu reconheci o cruel e o malicioso. O principal da cavalgaria. Era o invisível, o destruído. Conhecia a sua fraqueza e da minha manga tornei real um punhal de prata. Era a única forma de o derrotar.

— Seguirás meus passos. — Afirmou a horrenda criatura, imobilizando o seu cavalo negro diante do meu rosto. Encarei os olhos do animal em fração de segundos e avistei a sua agonia e sofrimento. Consegui absorver tais energias, que se acumulavam no mais obscuro pedaço da minha mente, e voltei a encarar a criatura.

— Não. — Ripostei enquanto franzia a minha testa. Pressionei os meus dedos contra a palma da minha mão. — Tu, sim, seguirás os meus! Pois, do meu corpo não retirarás nenhum membro, nem da minha mente extrairás alguma memória. Uma memória fortalece um ser. Um ato apenas te torna estúpido. Não resistas. Entrega-te ao teu melhor. Entrega-te à sabedoria e à maior força consistente que será, sem dúvida, a luz mais clara que terás omitida no teu coração. — Elevei uma das minhas mão até ao focinho enfadonho do cavalo negro, que acordara em sobressalto. A criatura caíra no chão, enquanto se desvanecia a sua túnica. De momento, toda a sua maldade estava em extinção e a sua verdadeira figura fora finalmente revelada:

Era o meu reflexo.

O meu outro lado.

O meu lado derrotado…

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CÉSAR DA SILVA, o independente
Gosta de gelados - muitos gelados! Diverte-se com pouco e cansa-se da rotina facilmente. Gosta de rir e, acima de tudo, de escrever. Sente aquilo que escreve e imagina tudo num mundo totalmente diferente, criado na sua própria mente. Tem 22 anos e sempre conquistou a sua independência. Adora boas séries e bons filmes. É viciado em entretenimento. Escreve aquilo que sente e gosta de dar asas à sua criatividade.