Tenho medo de cair, outra vez

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Fotografia © Pawel Kadysz | Cartaz © Laura Almeida Azevedo

Conheço-te há anos, mas apenas de vista. Pouco mais sei sobre ti, além do teu nome e daquilo que fazes. Temo-nos cruzado por aí. Trocamos cumprimentos, um ligeiro aceno de cabeça, um ténue sorriso.

Um dia, passámos a frequentar o mesmo café. Normalmente, chegas quando estou a terminar. Mantemos os rituais de saudação. Um aceno, um sorriso, um olá. Nada mais. E, com isto, o tempo decorre.

Questiono-me quem és, se és o que pareces. Oiço o que dizem de ti, mas sei que há mais além disso. A sociedade tem a tendência de rotular-nos, de reduzir-nos a um estereótipo qualquer, principalmente quando não nos consegue desvendar à primeira, quando não nos rendemos à sua vontade, aos padrões definidos sabe lá Deus por quem. O desconhecimento aguça-lhes a imaginação. Já vivi o suficiente para saber que nada é assim tão linear. Eu própria sempre senti na pele essa discriminação.

A empatia por ti despertou com o passar do tempo. Não sei bem vinda de onde. Há algo em ti com que me identifico. Sei que não somos iguais, mas é quase certo que teremos pontos em comum.

O impacto do teu sorriso foi crescendo em mim, mesmo que, na maioria das vezes, este tenha sido incentivado pelo meu. Agora, dou por mim a procurar por ti por entre as mesas do café.

Hoje, quando não te vi chegar, senti-me frustrada. Não era suposto ficar assim, mas, entretanto, quando chegaste, apesar do meu alívio, fui incapaz de olhar para ti. Hoje, tive vergonha. O coração bateu mais forte. O calor assomou-se-me à cara. Queria dizer-te olá, mas não fui capaz. Senti-me zangada por isso.

Quando é que se deu a mudança? Quando é passei a ver-te com outros olhos? Nem havia dado por isso, até hoje.

Queria que te sentasses na minha mesa. Queria conversar contigo, conhecer-te melhor. Queria perceber o porquê de tudo isto. Queira saber se há potencial para algo mais aqui.

Pela primeira vez, em anos, há alguém que domina os meus pensamentos que não aquele que me quebrou. E isso, por si só, é um caso a estudar melhor. Mas não me sinto capaz de fazer por isso, de me chegar à frente. O passado tolda-me os passos. Lembro-me daqueles olhos grandes, cravados em mim, condescendentes, por ter tido o atrevimento de achar-me digna de alguém, por ter tido a desfaçatez de ter tentado. Recordo a covardia e o desdém. Senti-me pequena demais. A sensação, ainda hoje, está gravada em mim e impede-me de arriscar novamente.

Não quero deixar-me levar, outra vez, pelas emoções. Queria ser pragmática, racional, apesar de saber que, nestas situações, tal é pouco provável. Não quero cair naquele vazio, outra vez.

Sei que, se não tentar, continuarás a ser um quase ninguém na minha vida.

Já não te vejo com os mesmos olhos. Não és apenas mais uma cara daquele café. Hoje, vejo o homem. Aliás, dou por mim a reparar em pormenores teus para os quais nunca havia prestado atenção.

Sentas-te aqui comigo? Deixas-me entrar na tua vida? Se não perguntar, nunca o saberei. Mas sinto-me de mãos atadas. Tenho medo de cair, outra vez.

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ANA PEREIRA, a inquieta
Nasceu numa noite estival, mas tem alma outonal. Convive com os números, mas encontra refúgio nas palavras. Aparenta serenidade, mas governa-a uma mente deveras inquieta. Se lhe perguntarem, é assim que se define a si própria. Aliás, estas foram palavras dela.