Só sei sentir assim!

1167
Fotografia © Julien Lavallée | Cartaz © Laura Almeida Azevedo
Fotografia © Julien Lavallée | Cartaz © Laura Almeida Azevedo

Cheguei aos 39 anos e posso dizer, com orgulho, que sou uma mulher feliz. Não quero parecer excessiva quando digo isto de peito cheio, mas sou-o. É certo que ainda me falta acertar nos números do euro milhões para poder tornar exequível tudo o que vou dizendo – mais a brincar do que a falar a sério – que, um dia, ainda quero fazer e ter. Mas cada vez estou mais certa de que aqueles cinco números e duas estrelas seriam apenas um bónus, perfeitamente, dispensável.

— Se me sair o euro milhões, construo um condomínio privado para todos. Cada um terá a sua casa e partilhamos os espaços comuns. Boa? – É mais ou menos assim que vou sonhando em voz alta. Digo isto com a certeza de que, um dia, vai mesmo acontecer. Depois, todos rimos durante alguns segundos, especulamos sobre cenários hipotéticos – todos idílicos – e, ali, somos felizes. Mesmo que o sejamos sem sair do lugar.

Por norma, quando andamos mais leves, mais aéreos, mais sorridentes, associamos esse estado de espírito, automaticamente, a um novo amor, a um flirt, a uma paixão. Talvez porque gostar dos outros tem essa capacidade sobre nós. De nos fazer sorrir mais, de nos fazer voar, de nos fazer viajar. Mesmo que o façamos sem sair do lugar. E, ali, somos felizes.

— Andas mais sorridente. O que é que se passa contigo? Estás apaixonada?

Em jeito de cliché, vou propositando a resposta, respondendo que sim, que estou apaixonada. Mas que estou apaixonada pela vida. Depois, todos rimos durante alguns segundos, centramo-nos a especular como será o meu Adónis – se é para ser, que seja um Adónis – e, ali, somos felizes. Mesmo que o sejamos sem sair do lugar.

E é, precisamente, no regresso a mim, quando já não estão pessoas por perto; quando volto para casa sozinha – sem Adónis – que concluo que, mesmo sem os números do euro milhões e sem Adónis, sou, genuinamente, feliz. Mas nem sempre (foi) é assim. Fazendo uma análise sensata e isenta de todo o percurso até aqui, posso concluir por mim – e, certamente, por tantas mais pessoas – que são mais as fases em que não gostamos de nós do que aquelas em que gostamos. Passamos uma vida inteira a tentarmos ser perfeitos que acabamos por ficar reféns de nós mesmos. É comum repetirmos, vezes sem conta – ao estilo de um mantra –, que ainda havemos de fazer isto ou aquilo, que ainda havemos de ir ali e acolá, que que agora é que é, que desta vez é que mudamos hábitos. Como se o facto de o exteriorizarmos fosse o bastante para dar cumprimento a tudo isso. E, durante alguns minutos, somos as pessoas mais corajosas do mundo. Mas raramente nos atrevemos, de facto, a mudar.

Quando nos atrevemos a mudar, quando nos atrevemos a sair da nossa zona de conforto, quando resolvemos sorrir para o universo, o universo devolve-nos o sorriso na mesma proporção. Aceitarmos que somos felizes, mesmo faltando fazer uma série de coisas e faltando conhecer inúmeros lugares, traz-nos a serenidade de vivermos com o que temos sem ficarmos presos à expectativa do que ainda gostávamos de ter.

Se não me quero voltar a apaixonar por alguém? Claro que quero. Sempre fui uma mulher de paixões assolapadas. Desmedidas. E desacreditar no amor é perder o rumo. Não quero que seja a solidão a aquecer-me o café da manhã, quando for velhinha. Mas, aos 39 anos, não podemos cair no erro – e, muitas vezes, na tentação – de amar por medo. Medo de ficar sozinha. Não podemos partilhar a vida com alguém só porque temos medo de que não haja ninguém para nos aquecer o café. Corremos sérios riscos do café nunca ficar, suficientemente, quente. E eu, na minha vida, preciso de um café que ferva, que transborde a cafeteira, que deixe o cheiro pela casa toda e, só quando assim for, deixarei que alguém me volte a aquecer o café da manhã. E, durante alguns minutos, serei feliz. Mesmo sem sair do lugar.

Aos 39 anos, estou apaixonada pela vida. Sem clichés. Considero-me uma privilegiada por, finalmente, ter tomado consciência de que sou livre de escolher para a minha vida tudo aquilo que apenas me fizer sentido. Sem ficar presa a um boletim do euro milhões. Sem ficar presa a lugares, aos quais não sei se alguma vez irei. Sem ficar à espera de cafés apenas mornos. Sei que há de haver sempre quem vá confundir isto com prepotência, talvez arrogância, mas eu quero continuar a acreditar que são apenas as minhas escolhas. Feitas por mim. E, essencialmente, para mim. Talvez, por isso, sorria, aos 39 anos. Sem clichés. Sem filtros. Genuinamente. E, durante alguns minutos, serei feliz. Mesmo sem sair do lugar.

Comments

comments

PARTILHAR
Artigo anteriorAinda não encontrei o meu caminho
Próximo artigoValoriza-te!
JÚLIA DOMINGUES, a JUX
Tem 38 anos. É solteira e igual a si mesma. Licenciou-se em Direito, sendo Jurista, mas a mais sábia aprendizagem foi aquela que a camaradagem desses tempos trouxe — e que dura, na maioria, até hoje. Tem um refúgio que gosta de pensar que é secreto: Braga, Gerês, a terra dos seus pais. Desde os 25 anos que diz: «Qualquer dia, piro-me de vez para o Norte. Quando for grande.» Mas nunca se pira, apesar de já ser grande. Adora tudo o que seja trabalhos manuais e o desenho é, sim, a sua verdadeira paixão. Tem fobia a andar de avião. E acredita no amor, embora não em coisas especiais. Afinal, não é preciso que ele venha de cavalo branco.