Um encontro no acaso da vida

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Fotografia © AJ Montpetit | Cartaz © Laura Almeida Azevedo
Fotografia © AJ Montpetit | Cartaz © Laura Almeida Azevedo

Encontrámo-nos numa das muitas estações deste comboio a que chamamos vida. Sentíamo-nos perdidos na multidão do mesmo comboio. Tínhamos destinos diferentes, sem, no entanto, conhecermos quais eram as nossas rotas. Andávamos ao sabor do tempo, obedecendo às regras do destino.

No entanto, naquele dia, resolvemos desafiar a vida. Quisemos contrariar o destino. Tinha chegado a hora de seguirmos a nossa intuição. E, então, resolvemos sair os dois na mesma estação. Trocámos as voltas ao que era habitual nas nossas vidas. Baralhámos os percursos que nos tinham sido estipulados.

Quisemos fazer juntos aquela viagem. Inventámos uma desculpa. Criámos um dia que não existia. Não seriam horas perdidas no nosso viver. Foram sentimentos encontrados de quem há muito vivia desencontrado. Era tempo de descobrir onde andavam os nossos sonhos perdidos.

Tu ficaste por opção e eu aceitei o teu convite. Fui contigo até onde este sonho nos levava. Segui as tuas pegadas na estrada do desconhecido. Pensei que estava a pisar o teu mundo. Descobri, depois, que estávamos ambos de passagem por este paraíso. Tu também tinhas escolhido uma estação diferente da habitual.

Era a tentação a chamar por nós. Era a alma a dar emoção a dois corações sem voz. Trocámos as voltas aos nossos dias sempre iguais. Adicionámos-lhe o que nos faltava. O brilho de sentir a tentação a correr nas nossas veias.

Perdemo-nos nas horas seguintes. Fomos crianças. Fomos loucos. Amámos sem horas. Foi uma paixão fora do tempo. Não encontrámos explicações para o amor. Ignorámos as razões do desejo que sentíamos. A necessidade de sentir o sabor do desconhecido fazia-nos estar ali, frente a frente. Um encontro no acaso da vida. Perdidos por um sentimento sem medida. Esperando desse modo encontrar um sentido para a vida.

Sentimos. Vivemos. Sem medos, sem fantasmas. Fomos nós, dois desconhecidos no meio de uma multidão. Dois corações que sonharam e viveram esta emoção. Dois seres que resolveram contrariar as decisões da vida.

O sonho terminaria quando o calor da paixão passasse. Apanharíamos, então, outro comboio ou, quem sabe, o mesmo e voltaríamos à rotina que nos estava destinada. Porque a vida também é feita de desvios. Porque os desvios nos fazem encontrar a rota certa para viver. Os desvios ensinam-nos qual é o sentido da vida.

Naquele dia, os nossos desvios encontraram-se e nós vivemos o momento certo na hora incerta. Fomos felizes num rumo de viagem que não era o nosso. Mas fomos felizes e guardamos essa memória na história das nossas vidas. Dois passageiros que abandonaram o comboio da vida para sonhar.

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ANGELA CABOZ, a miúda gira
Nasceu em Tavira há 49 anos. Desde a adolescência que é uma apaixonada pela leitura, pela escrita, pelo cinema e pela música. Escreve sobre sentimentos e, nas palavras, reflete a maneira de ver e de sentir o mundo. Em 2014, realizou um sonho: a publicação do seu livro «À procura de um sonho». Desde então, tem participado em várias obras coletivas.