«Não posso amar-te no escuro»

Texto vencedor | Desafio de escrita: «Dança»

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Fotografia © Ryan McGuire | Cartaz © Laura Almeida Azevedo
Fotografia © Ryan McGuire | Cartaz © Laura Almeida Azevedo

Ligam o rádio. O som no máximo. Os corpos reagem.

«Take your eyes off of me so I can leave»

Aproximam-se um do outro lentamente, em movimentos tão lentos que se sentem levitar. Os olhares não se conseguem desviar. Eles são dois corpos presos um ao outro.

«Please stay where you are
Don’t come any closer
Don’t try to change my mind
I’m being cruel to be kind»

Tocam-se e os corpos estremecem. Ela rodopia como uma bailarina no interior de uma caixa de música e ele agarra-a contra o peito. Como se, naquele instante, se tornassem um só ser, como se vivessem numa simbiose inquebrável, numa concha selada.

«I can’t love you in the dark
It feels like we’re oceans apart
There is so much space between us
Maybe we’re already defeated»

No refrão da música os corpos possuem o mesmo movimento. Dançam numa sintonia perfeita. Numa sintonia que só é possível quando dois corpos se tornam um. E, numa dança a pares, só é possível brilhar se os dois corpos se fundirem de tal forma um no outro, que se tornem um só. Um só corpo, um só movimento, um só sentimento, um só coração. A música pode cantar a derrota do amor, mas o toque daquela dança é o toque de dois corpos numa fusão de amor.

Os corpos deles aproximam-se tanto, que são obrigados a usar a força para se separarem. Caem no chão, com medo de ficarem perto demais. Separam os movimentos. Agora, os corpos movem-se pela revolta, em movimentos tão diferentes, tão desconcertantes. São movimentos de dois coração feridos, magoados, maltratados pelo amor.

«Please don’t fall apart
I can’t face your breaking heart
I’m trying to be brave
Stop asking me to stay»

Os corpos voltam a tocar-se. Mas cada toque é uma dor. São dois corpos que já não sabem mais como se tocarem, como se sentirem, como se amarem. São dois corpos urgentes de amor, mas aquele amor já não os faz viver. Na dança da vida, há amores que se perdem. E eles perderam-se um do outro. Ainda que se tivessem fundido, perderam-se no caminho.

«It is the world to me
That you are in my life
But I want to live
And not just survive»

Os movimentos começam a acalmar-se, até que os corpos param, frente a frente. Olham-se como nunca se tinham olhado e conversam no silêncio daquele olhar. As lágrimas escorrem-lhe pelo rosto. Sabem bem que aquela é a dança final.

«I don’t think you can save me»

[Música: «Love in The Dark», Adele.]

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RAQUEL FERREIRA, a engenheira
É de uma aldeia perdida no norte do país e ambiciona ser mestre em Engenharia Civil. No percurso, apaixonou-se pelas palavras e escreve. Sobre tudo. Sobre nada. Ainda não é tudo o que quer ser, mas luta todos os dias por isso.