Vais mesmo deixá-la ir?

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Ilustração/Cartaz © Laura Almeida Azevedo
Ilustração/Cartaz © Laura Almeida Azevedo

Pouco passava das sete da manhã quando tocou o despertador, aquele barulho que te diz que são horas de por os pés fora da cama, abrir a janela, respirar e dizer: «Prepara-te para mais um dia. Vai lá, o dia é teu. Mesmo sem vontade terás de tomar o teu banho matinal, beber o teu café e ir à luta…»

Assim que abriste os olhos e que tomaste consciência de que era segunda-feira outra vez, e que o teu fim-de-semana tinha terminado, eram tantas as questões que te ecoavam na cabeça. Como seria possível deixarem-te ir daquela forma? Logo a ti, que fizeste tanto e te esforçaste para prender aquela pessoa a ti…

Tinhas escrito a carta derradeira, a carta que deixaste debaixo da almofada, que à noite sabias que seria encontrada, por volta da uma da manhã:

Vais deixar-me ir? Mesmo com toda esta imensa vontade de me teres para ti, num sentimento desmedido, mas que muitas vezes por orgulho e por falta de coragem, simplesmente, não demonstras?

Vais deixar-me ir, mesmo quando te apercebes de que nunca ninguém te quis como eu, nunca ninguém te amou como eu e que jamais alguém fará, por ti, o que eu faço, quando te preparo aquele chá à noite, antes de adormeceres, só porque não consegues dormir quando o mundo está prestes a desabar em cima de ti?

Terás coragem de me deixar escorrer por entre os teus dedos, os dedos daquelas mãos que, tantas vezes, percorreram as estradas do meu corpo?

Pergunto-me se me deixarás ir, mesmo depois daquele dia em que me procuraste incessantemente, quando te dei a entender que me iria, e tiveste medo, muito medo! Medo de que tudo se fosse e que desta vez não houvesse volta a dar, porque os corpos e as almas se tinham distanciado.

Sabes, os sentimentos têm de ser mostrados sem medos, sem vergonha e as atitudes compram as almas perdidas, ou as almas em busca de momentos eternos, mesmo que só por um segundo.

Vais deixar-me ir, mesmo quando te lembrares daquelas palavras malucas que só eu tinha coragem de te dizer e que não ouvias, nem ouvirás de mais ninguém? Dizias que era loucura, mas sabias que a loucura era por ti, por mim e por nós! Aquela loucura de agarrar no telefone e querer ver-te hoje. E hoje passava a agora, já!

Vais mesmo deixar-me ir? E quando te sentires em baixo, sem saída possível, naquele dia terrivelmente mau, em que tudo te correu mal e em que só precisas dum porto de abrigo, duma pitada de loucura misturada com aquelas palavras de conforto que tanto gostas e aquela festa no cabelo, com a cabeça deitada no meu colo, até, por fim, adormeceres?

E terás tu coragem que me deixar ir, quando te lembrares daquela vez em que bebemos demais e andámos às voltas pela cidade, a pé e com uma garrafa de gin na mão?

Terás coragem de me deixar ir, sempre que te lembrares de tudo o que te desculpei, porque quem ama desculpa, de todas as horas que esperei por ti e tu não apareceste?

Terás coragem de me deixar ir, mesmo lembrando-te do sorriso que faço sempre que olho para ti e me imagino contigo numa montanha russa de emoções, em que, quando nos unimos, a eternidade é só nossa e mais ninguém consegue entrar?

Vais virar as costas a uma simbiose perfeita, entre platónico com carnal, que só podia dar nesta combinação única de querer?

E, quando olhares para trás e te sentires só, te sentires sem rumo e sem aquele conforto da alma que só eu te consigo dar?

E, quando pensares em toda uma história que fomos construindo, ao longo destes momentos de partilha, cumplicidade, amizade, amor?

Vais conseguir deixar-me ir?

E a tua carta terminava assim. Que intensidade!

E, uma vez mais, falo ao ouvido de quem me lê:

Pensa bem em tudo o que já viveste ou que ainda poderás viver com aquela pessoa que consideras tua, que é tudo aquilo que queres para ti, mas que, por alguma razão, não consegues ter ou perdeste por erros constantes, por comodismo, por a teres como um dado adquirido.

Não a deixes ir. Não tenhas medo de demonstrar que sem ela não és a mesma pessoa. Mostra-lhe o quão importante é para ti. Valoriza-a. Mostra-lhe que a tua vida é tão mais colorida e mágica com ela!

Diz-lhe sempre que sentires a sua falta, mostra-lhe o teu melhor eu e que é com essa pessoa que queres escalar as montanhas mais íngremes da vida!

Dá-te sem limites a esse amor, que nem todas as pessoas têm a sorte de encontrar pelo caminho! Muitas encontram vários amores nestas encostas da vida, mas nem todas encontram a tal simbiose perfeita de que te falei há pouco. E, se a encontraste, não a percas de vista!

Alimenta esse amor. Mesmo que não seja perfeito, é teu, é verdadeiro! É único, sabes! Único! Aquela perfeição peculiar, como quando nos deixamos elevar ao céu, nos juntamos com a lua e fazemos uma festa mágica lá em cima, contemplando o amor cá em baixo!

Podes chegar a uma altura da tua vida em que o arrependimento será a tua companhia diária, em que a mágoa te acompanhará do pequeno-almoço ao jantar e te sentirás uma pessoa tão amarga, revoltada, sempre que vires um casal apaixonado e que consegue fazer da eternidade uma eternidade única e só sua!

Sente a tua pessoa. É este o segredo para o caminho ser decorado com serpentinas de todas a cores!

Não te imaginas num banco de jardim, daqui a muitos anos, lembrando-te daquele sorriso jovem e maroto, que te dá vida só de te lembrares que, um dia, existiu em ti, pois não? Que um dia aquela pessoa foi tua e foram um só, sonharam juntos, riram juntos e choraram juntos. Que foram uma alma em dois corpos!

Simplesmente não a deixes ir. Imagina que, algum dia, ela é encontrada por alguém que lhe dá tudo o que tu não deste. Que lhe diz que a ama, que é única, que é importante. Sentir-te-ás sem conteúdo. Um vazio tomaria conta de ti, atormentando-te como se fosse uma tempestade, em dia de pesca, em alto mar.

Desculpa falar-te ao ouvido, desta vez, de uma forma mais fria. Mas, sabes, pior que estares num banco do jardim a viver emoções passadas e a imaginar sentimentos que podiam ter sido partilhados, almas que se amavam incondicionalmente que podiam ter juntado corpos de fogo, pior que isso, é veres a tua pessoa já com ajuda de uma bengala, de mão dada com outra pessoa, que a encaminha e que lhe mostra ternura, que lhe segura a mão, aquela mão que tantas vezes segurou o teu mundo. O vosso mundo!

Ela irá ser feliz longe de ti e, sabes, a culpa será apenas tua!

Tens mesmo a certeza de que a queres deixar ir?

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DORA NUNES, a Cinderella
Tem 37 anos e vive em Ponte do Sor — uma «cidade alentejana», diz, «de gente de alma gigante». Trabalha como administrativa num lar de idosos e canta numa banda. Duas terapias que a fazem sentir-se feliz. A escrita surgiu na adolescência. Era uma miúda tímida, com os medos e os anseios tão típicos da «idade do armário». Na escrita, libertava-os, soltava-se. Um desejo? Que cada palavra sua toque o mundo de quem a lê. Sente que a sua missão é ajudar os outros e acredita no lado bom de todos nós. Quem é ela? É a nossa Cinderella!