O dia em que ele a fez chorar

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Fotografia © Brandon Morgan | Cartaz © Laura Almeida Azevedo
Fotografia © Brandon Morgan | Cartaz © Laura Almeida Azevedo

Ela, independente, inteligente e sociável, trajando sempre aquele que é o seu melhor fato e a sua imagem de marca, o seu sorriso fácil, rasgado e alegre. Ela, que, tantas vezes, fora o rochedo de várias pessoas que a abordavam, procurando que ela as ouvisse e lhes desse um conselho ou opinião. Ela, que nunca chorava, um dia chorou.

A fortaleza veio abaixo e a fragilidade e a sensibilidade, que, tantas vezes, escondia atrás do seu sorriso, vieram à tona e aí permaneceu por muito mais do que um dia. Dias dolorosos que pareciam eternidade, até que, num desses dias, prometeu veementemente a si mesma que nunca mais iria chorar.

Que promessa mais ridícula e sem lógica, é um facto, e ela sabia-o, mas queria voltar a ser forte. Não que chorar seja para os fracos. Não, não é. Chorar faz parte da vida e é assim que deve ser encarado. Só que ela queria que todos à sua volta estivessem bem e, se ela chorasse, eles não estariam. E prometeu e cumpriu, bem demais até. Tão bem, mas tão bem, que precisava de chorar e já não conseguia. E as lágrimas, que não escorriam, amontoavam-se e afogavam-lhe o coração, entorpeciam-lhe a mente. Sentia-se como se fosse uma panela de pressão, daquelas antigas, à qual foi tirado o «pipo». Não sei se é assim que se chama, mas é aquela partezinha que vai girando e libertando o vapor que se vai criando dentro da panela. Sem esse pipo corre-se o perigo de, com a pressão acumulada no seu interior, a panela rebentar. Pois, e assim estava ela, nesse estado. E não adiantava ver filmes melosos, contarem-lhe histórias de vida trágicas, irritarem-na ou até cortar cebolas. Sim, até isso ela tentou. Em vão.

Mas, num dia, que podia ser um dia como outro qualquer, mais uma tempestade cai sobre ela, ferida e profundamente triste. Não baixa os braços. Não se isola. Traja-se, mais uma vez, com o seu sorriso e aí vai ela jantar e conviver com um grupo grande de amigos. E, como sempre, brinca com todos, ri, gargalha até, está feliz. (É o que todos pensam… todos menos ele, que a observa desde que ela chegou, ou melhor desde que a conheceu há poucos meses atrás.)

Também ele interage com ela e uma cumplicidade forte os ligava: o mesmo tipo de humor, a sensação de que não era preciso falarem muito para entenderem tão bem o que queriam dizer. Com eles até os silêncios falavam, tudo era comunicação — o olhar, o toque, os gestos, as expressões faciais. E ele, mais do que ninguém naquela sala, sabia que ela estava infeliz e o que ele mais queria era vê-la feliz.

Um dia, ele fê-la chorar. Nesse dia, nessa mesma noite, fê-la derramar todas as lágrimas escondidas e acumuladas que a faziam sentir-se dormente, que a sufocavam. Que tanto mal lhe faziam.

Discretamente afastou-a para um recanto acolhedor e, longe dos olhares dos outros, disse-lhe duas frases que a deixaram tensa e com um nó na garganta: «Escusas de me dizer que estás bem, com esse teu sorriso alegre sempre presente no teu rosto, porque eu sei que, por dentro, não é a sorrir que estás. Todos os outros, que aqui estão e te conhecem há anos, podem não ver isso. Mas eu vejo-o claramente!». Falou-lhe naquela voz grave, assertiva e pausada, serena, que tanto mexia com ela, e fixou-a no olhar. E ela tentava conter-se, tentava fugir daquele olhar que lhe escrutinava a alma, mas o coração batia descompassadamente, o lábio tremia-lhe e ela mordeu-o para o obrigar a parar. Um nó na garganta quase a impedia de respirar e engoliu em seco.

Ao ver o seu estado, ele lançou-lhe as questões: «Porquê? Porque és assim? Não precisas de ser sempre tão forte!» E, num movimento espontâneo de braço repentino e que a surpreendeu, arrastou-lhe a cabeça para o seu ombro e aconchegou-a num abraço de um braço só. Mas com toda a força que um abraço tem, um abraço que segura, que dá calor, que dá vida.

E ela soluçou, e não mais se conteve. Cascatas de lágrimas se soltaram… Ele tinha conseguido o quase impossível. Fê-la chorar. E como foi bom, finalmente, chorar.

E ali ficou e ali se demorou, a sentir-se frágil, mas protegida, sabendo que o corpo dele, estrategicamente colocado, lhe estava a servir de escudo para que ningúem a visse chorar. Que os seus olhos de lince zelavam pela sua privacidade, e ouvindo o seu respirar, junto ao seu ouvido, depois de ele lhe dar um beijo naquela cabeça teimosa e orgulhosa e de lhe dizer: «Cheiras tão bem! E, sabes, és uma tonta! Chora, chora agora toda essa tristeza e chora sempre que precises. Não deixas de ser forte por isso e, se estás sempre disponível para os teus amigos e para os seus choros e tristezas, eles também lá estarão para ti. Eu estarei sempre aqui para ti. E, agora, sim, já vais poder sorrir! Esse sorriso lindo e radiante que te ilumina o rosto, o olhar e, agora, também a alma!»

E ela chorou, sorriu, sentiu-se frágil e fortaleceu-se naquele abraço de um braço só.

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SÍLVIA SANTOS, a menina-mulher
Diz, por brincadeira, que é a Sílvia e a Aivlis — o seu nome escrito de trás para a frente. Porquê? Porque é de opostos. Voa e rasteja. Ri e chora. Reflete e descontrai. Uma menina-mulher, das que não sabem que sabem e que pensam que não sabem, mas sabem. Forte, mas resistente. Insegura, mas persistente. Com sede de viver, de sentir, de experimentar coisas novas: tanto pratica artes marciais, como salta em queda livre no meio das palavras. O que a sufoca? A monotonia. Anda constantemente em busca de novos desafios — e foi assim que veio aqui parar.