És quem tu és, ou quem queres parecer ser?

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Fotografia © Kasia Serbin | Cartaz © Laura Almeida Azevedo
Fotografia © Kasia Serbin | Cartaz © Laura Almeida Azevedo

Quantas das tuas ações vão ao encontro do que tu realmente sentes, daquilo em que acreditas, a favor de quem és? Quantas vezes tens contrariado o teu ser genuíno? Quantas dessas ações valeram a pena? Quantas vezes agiste quando o teu corpo gritava para não avançares? Dizia-te que estavas errado, tu até ouvias, percebias os sinais e mesmo assim ignoravas. Quantas vezes avançaste apenas porque era isso que achavas que os outros esperavam de ti? A sociedade. Como se esta fosse a dona da razão…

Quantas vezes seguiste o caminho do parecer e não do ser? Porquê? Quantas vezes calaste a tua voz interior? A voz que te dizia para não ires por aí, mas seguiste caminho na mesma, porque achavas que era por onde tinhas que ir para chegar aonde querias? E era isso mesmo o querias? É isso que te preenche? Sabes sequer o que queres? Alguma vez soubeste?

São esses os amigos que te dão jeito ter? É essa a mulher que acham que te fica bem? O preço da tua ambição ainda não te foi cobrado? Quando cai o pano, ao fim do dia, o que é que sentes? Vazio e inquietação? Ou realização e paz?

Vais-te ignorando. Pondo-te a um canto algures, dentro de ti. E fazes de ti ator na peça de teatro da tua própria vida. «Tenho que parecer.» «Tenho que ter.» «Este não sou eu, mas não há outra forma para lá chegar.» «É assim que o mundo funciona.» Para se ser aceite num grupo, para se chegar a um determinada posição profissional, para se atingir um certo satus quo na sociedade, há muitas vezes que parecer e não ser. E parecer pontualmente, em momentos de menor importância, não é o mesmo que parecer permanentemente, deixando que tal te defina a ti e à tua vida.

E então? Já encontraste o que procuravas? Ou ainda procuras por algo que ainda não descobriste o que é? Afinal, ainda não era isto o que querias, o que estavas à procura? O que é que já perdeste pelo caminho? É esse o preço que estás disposto a pagar?

Como é que convivem, dentro ti, o orgulho e a vaidade com o teu grande coração e os teus sonhos, os verdadeiros? Essa luta, que travas contigo próprio, tem valido a pena? É a personagem que encarnas melhor do que quem és? É este quem queres ser? Ou são os dois o mesmo?

As pessoas de que te fizeste rodear quem são? São as que escolherias ter ao teu lado, caso fosses verdadeiramente livre? São as pessoas que convém teres, ou são as que realmente gostarias de ter? Se, um dia, caíres, são eles que lá estarão para te apoiar ou afastaste-os na tua subida? Quem manténs ao teu lado? São as pessoas que são sinceras contigo, quer gostes ou não, ou são as que te dizem apenas o queres ouvir, que te afagam o ego e assim têm-te na mão? Se, um dia, o teu mundo ruir é esse o teu amigo que te amparará, que te ouvirá, ou aquele que dirá que não te conhece? É essa a mulher que te dará a mão e a força de que precisarás, ou aquela que te virará as costas, porque já não tens nada para lhe oferecer?

Se tu ouvisses o teu coração, se ignorasses as vontades alheias, se fosses realmente dono de teu querer, terias feito as mesmas escolhas? Escolherias estar onde estás hoje? São estas as pessoas que quererias ao teu lado? Se sim, então és feliz. És abençoado. Se assim tal não é, lamento.

Enquanto contrariares quem és, nunca encontrarás o que procuras. Nunca ficarás satisfeito. O ego não preenche ninguém, só esvazia. E é também por isso que a nossa sociedade está onde está. Porque, se formos quem somos, seremos diferentes e, se formos diferentes, somos postos à margem. Sofreremos em dobro. Mas talvez, talvez, valha a pena. Caso contrário, somos uns acomodados, o rebanho. É mais fácil, muito mais fácil, admito. Dizem que, se não podes vencê-los, junta-te a eles. E a sociedade vence-te pelo cansaço.

Não, não é fácil ser-se genuíno.

És quem tu és, ou quem queres parecer ser?

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ANA PEREIRA, a inquieta
Nasceu numa noite estival, mas tem alma outonal. Convive com os números, mas encontra refúgio nas palavras. Aparenta serenidade, mas governa-a uma mente deveras inquieta. Se lhe perguntarem, é assim que se define a si própria. Aliás, estas foram palavras dela.