Uma carta de despedida

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Fotografia © Júlia Domingues | Cartaz © Laura Almeida Azevedo
Fotografia © Júlia Domingues | Cartaz © Laura Almeida Azevedo

Hoje, pediram-me para escrever uma carta de despedida. E, como em qualquer carta de despedida, há que dirigi-la a alguém. Foi nisso que fiquei a pensar. Escrever uma carta de despedida dirigida a um pai ou a uma mãe continua a ser, para mim, demasiado doloroso. Mesmo que se diga tudo, ficará sempre tudo por dizer. Só a palavra despedida encerra em si um sentimento de cisão, de desapego, de fim. E uma carta de despedida, neste momento, não vai ao encontro da forma como encaro a vida.

Se nunca escrevi uma carta de despedida? Claro que já escrevi. Já escrevi várias cartas de despedidas. Já escrevi cartas a despedir-me de um amor, que jurei não ter fim. Já escrevi cartas de despedida – quase sempre manchadas com lágrimas -, quando tive de me separar dos amiguinhos da escola primária ou do liceu. Até já escrevi cartas de despedida mesmo quando sabia que não era uma despedida. Sim, eu sou do tempo em que se escreviam cartas. E as cartas de despedidas também fizeram parte do rol.

Contudo, atualmente, não sou feita de despedidas. Sou feita de chegadas. Não quero ser feita de desencontros. Quero ser feita de encontros. Já não sou feita de lágrimas, mas sim de sorrisos. Por isso, uma carta de despedida, nesta fase da minha vida, só faz sentido ser dirigida a uma pessoa. A mim.

Assim:

Olá, Júlia

Conhecemo-nos há 39 anos, mas apenas hoje te dirijo estas palavras.

Sei que, provavelmente, ficarás surpreendida por receberes esta carta, uma vez que estamos todos os dias juntas. Sei que acharás que já não tenho mais nada para te dizer. Sei que vais achar isto um disparate ou até uma lamechice. Tu, que nem és muito dada a lamechices. Mas já irás perceber porque é que te escrevo esta carta de despedida.

Passo-te a explicar. Escrevo-te, precisamente, porque não sou feita de despedidas. Por não o ser, despeço-me do que deixaste ficar lá atrás. Despeço-me da Júlia que ficava presa ao passado, a tentar perceber as coisas que não davam certo. Despeço-me das correntes que te aprisionaram aos amores, impedindo-te de caminhares para a frente. Despeço-me daquela Júlia que deixou de gargalhar; que se esqueceu dela, tantas vezes, por ter amado demais. Despeço-me da Júlia das lágrimas, da Júlia que não arregaçava as mangas para lutar por aquilo em que acreditava.

Mas atenção. Faz-me um favor: Não a critiques. Não a tornes mais fraca ou menos válida, por ter sido assim. Isso seria meio caminho andado para lá voltares. Todas as tuas escolhas, decisões e opções, sem exceção, fizeram parte de um processo. Um processo de descoberta. Da descoberta de quem sou, hoje. A ela deves estas palavras de despedida. Encara estas fases como uma aprendizagem e não desvalorizes a mensagem e a lição que todas elas te ofereceram. Porque foi por teres chorado, noites a fio, que hoje consegues dar valor ao teu gargalhar. Foi por teres ficado acordada de noite que hoje achas o sol belo – que se ergue todos os dias, para te dizer bom dia. Foi por teres amado, desmedidamente, que hoje consegues perceber que, desmedidamente, só nos podemos amar a nós. Hoje, sabes que, cuidando melhor de ti, irás cuidar melhor, naturalmente, de quem escolheres amar. Foi por teres falhado ontem que hoje saboreias melhor as conquistas.

Por isso, Júlia, despeço-me de ti, porque deixei de ser de despedidas. Deixo-te ir, mas antes quero-te agradecer tudo o que, contigo, aprendi. E apenas me desapego de ti por me ter apegado a mim.

Da tua outra Júlia,

Com sincera gratidão.

Júlia Domingues.

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JÚLIA DOMINGUES, a JUX
Tem 38 anos. É solteira e igual a si mesma. Licenciou-se em Direito, sendo Jurista, mas a mais sábia aprendizagem foi aquela que a camaradagem desses tempos trouxe — e que dura, na maioria, até hoje. Tem um refúgio que gosta de pensar que é secreto: Braga, Gerês, a terra dos seus pais. Desde os 25 anos que diz: «Qualquer dia, piro-me de vez para o Norte. Quando for grande.» Mas nunca se pira, apesar de já ser grande. Adora tudo o que seja trabalhos manuais e o desenho é, sim, a sua verdadeira paixão. Tem fobia a andar de avião. E acredita no amor, embora não em coisas especiais. Afinal, não é preciso que ele venha de cavalo branco.