Amei-te como ninguém te amou

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Ilustração/Cartaz © Laura Almeida Azevedo
Ilustração/Cartaz © Laura Almeida Azevedo

Luísa andava às voltas, sem saber o que dizer. As mãos tremiam tanto, que nem conseguia fumar em condições. Estava um caco. Afinal, não era ele que estava mal. Pensar que tinha entrado numa espiral de negatividade mudava quando via a sua figura. Nem a conseguia reconhecer. Estava magra, triste, nervosa e não precisava de mais nada, quando via o vazio nos seus olhos.

— Tu ficaste diferente, solitário, triste, descrente. – Luísa tentava, em vão, manter com ele um diálogo.

— Se tivesses tido tanto interesse naquela altura, como pareces ter agora, eu podia não estar assim — ripostou.

— Não é bem assim…

— Como não é bem assim? – Nem a deixou prosseguir.

— Eu só estou preocupada contigo. Os teus olhos estão exaustos. O corpo mostra o distanciamento que tanto negas. Parece que nem dormes de tão cansado que pareces.

— Os meus problemas não são da tua conta.

Os olhos humedecidos de Luísa mostravam um arrependimento atroz e isso ainda lhe custava mais. Perceber que podia ter cometido tamanho erro.

— Quando esse coração estiver de novo a funcionar, o que é que vais fazer, Gonçalo? Salvar-te a ti ou ao teu coração?

— Considerando que foste tu que puseste o meu coração assim…

Luísa respirou fundo. Atirou fora o cigarro.

— Certo. Tens toda a razão. É tudo culpa minha, minha e do meu egoísmo. Ficas contente?

— Longe disso, Luísa. Mas acho que hoje se aprendeu aqui uma lição, não achas?

— Uma lição? Sobre o quê?

— Sobre arrogância.

— Bem. Se alguém percebe de arrogância, é o homem que está à minha frente. E, pela tua própria definição, na altura eu nunca fui relevante.

— Toda a gente é relevante para alguém, sabias? Eu amei-te como nunca ninguém te amou. Aliás, ainda hoje te dou os bons dias pela manhã. Ainda hoje estão duas canecas na mesa ao pequeno almoço. Eu passei dias e dias a acreditar que existe, de facto, algum tipo de plano superior. E esse é o nosso problema, enquanto humanos. Ficamos parados à espera que alguém repare as coisas. Mas ninguém vai. Ninguém quer saber. O universo é infinito, caótico e frio. E nunca houve um plano.

Luísa ficou sem palavras. Ele continou:

— Uma coisa que o amor me ensinou foi que o modo como fazemos as coisas importa tanto como o que fazemos. E, segundo essa lógica, tu mataste tudo aquilo em que eu acreditava.

— Sabes até que ponto eu bati no fundo, Gonçalo? Só depois de perceber que as pessoas importam é que fui capaz de as ajudar. E eu gostava de fazer o mesmo contigo, se me deixasses.

— Sabes o que aconteceu da última vez em que não me ajudaste, não sabes?

O chão tinha fugido debaixo dos seus pés. Montanhas desabaram. Quando mais precisou, Luísa não esteve. Abandonou-o na altura mais importante da sua vida. Naquele momento Gonçalo nem se preocupava se aquela era a mulher da sua vida. Um ombro tão necessário que nunca esteve lá. Uma mão que limpasse as lágrimas, ou um simples sorrir que ajudava a levantar de manhã.

— Não te condeno, se não confiares em mim.

— Sinto-me alguém tão assustado, Luísa, que a única forma que encontro de lidar com as coisas é a lutar. Torna-nos bem sucedidos, mas também muito cansados. E amar-te cansou-me…

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NUNO CORREIA, o desportista
Tem 36 anos. Nasceu em Coimbra. É um apaixonado pelo desporto e pelo ar livre. Descobriu o gosto pela escrita no dia em que deixou de acreditar no amor... Ou, aqui entre nós, talvez não.