O mar onde morri, te encontrei e vivi

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Fotografia © Christopher Campbell | Cartaz © Laura Almeida Azevedo
Fotografia © Christopher Campbell | Cartaz © Laura Almeida Azevedo

O mar, este mar onde a vida, um dia, começou e a minha terminou.

Mais uma onda, mais um mergulho. Podia ser uma onda qualquer, mas não. Esta era tenebrosa! Era a onda divina que iria traçar, uma vez mais, o meu destino. Enrolou-me nela e arrastou-me com ela. Girei e rebolei vezes sem fim, sem nunca dela me conseguir libertar. Respirei aquela água salgada, entrei em pânico, vi a minha vida em fotografias, as minhas lágrimas misturaram-se com o sal daquelas águas – «não quero morrer!» – e apaguei-me.

Um silêncio de morte. Abri os olhos e vi a água cristalina, que me cobria e rodeava, mas já sem sofrer. E foi aí, sem perceber ainda o que me estava a acontecer, que te vi. Olhar azul, cristalino como aquele mar, tez morena bronzeada pelo sol e um sorriso que, de alguma forma, me era familiar. Conhecias-me e envolveste-me nos teus braços. Morri e estava no paraíso, pensei eu. Só podia! E estava mesmo. Sussurraste-me algumas palavras ao ouvido, que só mais tarde viria a recordar e entender. «Desta vez, não te deixarei morrer! Desta vez, vais viver e vais lutar para isso, ouviste? Luta pela vida! E vais ser feliz com quem sempre devias ter sido!»

«Mas quem és tu?», pergunto-te eu, a sentir que um elo forte nos unia. E foi nesse instante, em que os teus lábios se entrelaçaram nos meus, que percebi. Eras tu! Vi-te a ti e a mim em outra época, em outra vida, abraçados e enamorados. Aquele amor tranquilo, seguro. O meu porto de abrigo. Eras tu! «Quero aqui ficar. Não te quero voltar a perder, Diniz. Estou tranquila e em paz. Porque me pedes para viver, se a morte é tão doce?»

«Sempre foste teimosa, Constança!» E sorris, mas continuas a falar num tom assertivo e forte «Usa essa tua teimosia para te agarrares à vida, por ti, por todos nós! Vai! Eu liberto-te! Vai! Respira! Acorda! Vive! Eu estarei sempre por perto para te proteger, para vos proteger!» E, nisto, abraças-me fortemente e beijas-me uma vez mais, com uma intensidade tal que, não estivesse eu morta e diria que até o meu coração palpitava. Pergunto-te, confusa: «Vivo por todos nós? E vai-nos proteger? Não entendo. Além de mim e de ti, de quem falas mais?»

Dizes-me: «Um dia, lembrar-te-às de tudo». E empurras-me para longe e uma força me suga, a força da vida… Sinto-me a ir, mas não quero. A vida arrancava-me agora de ti, do teu colo, do teu amor. Lágrimas caíam dos meus olhos, lágrimas feitas da mesma dor das que contornavam, agora, o teu rosto.

Tocámo-nos até não podermos mais, até sobrar um só dedo meu num só dedo teu. Tu não me puxavas para ti. Tu querias que eu voltasse a viver.

Já não te tocava, já não te ouvia, mas lia-te nos lábios a palavra: Vive!

Senti uma forte dor no peito, tudo ficou escuro e apaguei-me novamente.

Oiço vozes aflitas a chamarem por mim, a areia nas minhas costas a fazer-me comichão e uma pressão compassada no meu peito. Sinto uns lábios nos meus, não em um beijo, mas no beijo que me faz regressar à vida, numa inspiração forçada que me obriga a respirar e a soltar uma golfada daquela água, onde estive mergulhada.

Abro os olhos. Esbugalho-os mesmo. Não sei se por ainda não conseguir respirar, se por te ver. Como era possível? Ali estava aquele olhar azul, cristalino como aquele mar, tez morena bronzeada pelo sol e um sorriso que, de alguma forma, me era familiar. Com uma ténue diferença. Não sei bem o quê, mas com algo, ligeiramente, diferente na expressão.

Dói-me tudo. Os pulmões parece que rebentam. A garganta arde-me. O sabor do salgado agonia-me. A morte era tão doce. A vida é tão sofrida. Vomito e sinto a cabeça em rodopio. Estou quase a desmaiar. Oiço a sirene do INEM ao longe. Falas comigo, mas não te oiço. Só quero fechar os olhos e voltar a morrer. Mas tenho de viver. Prometi que o faria.

Alguns dias mais tarde, já fora de perigo e fora do hospital, sentas-te a meu lado a olhar para o mar, na mesma praia onde tudo aconteceu. Desde esse dia nunca mais nos largámos, tínhamos um fio invisível que nos unia e só estando perto um do outro nos sentíamos, inexplicavelmente, bem. Ajudaste-me a recuperar e eu agarrei-me à vida o mais que pude. E consegui! Consegui manter a minha promessa: viver.

Contas-me, emocionado, como me salvaste. Estavas a fazer surf como de costume e estavas longe de onde a onda me enrolou. Ninguém viu que eu estava submersa, nem tu. A tua voz fica trémula e dizes: «Sabes, ouvi a voz do meu irmão gémeo. Vai! É agora! Salva-a! E a prancha foi arrastada para onde estavas, Constança. Vi-te lá no fundo, inerte. Saltei da prancha e mergulhei. Levei-te até à areia e fiz-te reanimação cardio-respiratória. Já estavas arroxeada. Pensei que não te iria salvar e gritei-te várias vezes: Vive, ouviste?»

Arrepio-me, ao mesmo tempo que me interrogo. Irmão gémeo? Porque nunca me falaste nele, Lourenço? Onde está ele? «Então, foi o teu irmão que me viu?» Pergunto-te. Olhas-me e dizes: «O meu irmão Diniz morreu, aqui nesta praia, afogado há uns anos atrás.»

Tudo se começa a clarificar. Afinal, o rapaz que falou comigo, o meu amor, era o teu irmão gémeo, numa vida passada e, pelos vistos, teu irmão nesta também.

Petrifico e desfiguro-me por instantes. Apercebes-te disso e abraças-me. Este abraço… Ai, este abraço. Eu conheço este abraço! Eu conheço-te! Eu reconheço-te! E sinto um forte impulso, algo me impele para ti, algo incontrolável e, num ímpeto, beijo-te. Embrenhamo-nos num beijo ardente, intenso, cúmplice. E a frase «um dia, lembra-te-às de tudo» vem-me à cabeça. Vejo-me contigo, na mesma época que me vi com o teu irmão gémeo, o meu Diniz, em outra vida. Numa época longínqua no tempo, numa época muito ao estilo do filme Orgulho e preconceito. Vejo-nos aos três e percebo tudo. As lágrimas escorrem-me pelo rosto. As imagens aparecem-me tão nítidas, na mente:

Eu e tu, Lourenço, no nosso local preferido, local de tantas brincadeiras, conversas, de tantas gargalhadas, de tantas confidências, junto ao penhasco onde nos sentávamos a admirar o verde da encosta e o azul do mar lá em baixo, constantemente revolto. Sempre nos amámos desde que nos conhecemos, desde crianças, mas a vida separou-nos, e foste estudar para longe e, durante alguns anos, não tivémos contacto. Acabei por transferir o meu amor para o teu irmão, que tanto me amava. Mas, um dia, regressaste para ficar e o amor, que sempre esteve presente, continuava ali à espera de ser finalmente vivido. Entre choros e soluços, decidimos contar ao teu irmão. Eu amava os dois, mas um era o amor tranquilo, seguro, quase fraternal, coberto de respeito e carinho. E o outro, o nosso, era um amor diferente, um amor paixão, um amor de alma, um amor de vida. Envolves-me num abraço e solta-se um beijo, ardente, intenso, cúmplice, de vida. O nosso primeiro e único.

Mas o que não esperávamos era que alguém testemunhasse a nossa conversa e o nosso beijo, e muito menos que esse alguém fosse o Diniz. Dorido, magoado no seu amago, confirma o que sempre soube, que o meu amor por ti era mais forte. No calor da discussão empurra-te, tu tropeças numa pedra e cais, cais por esse penhasco, o nosso penhasco, aquele que ironicamente agora despedaçava os nossos sonhos, o teu corpo e a cabeça, até chegares ao mar. Eu, sem pensar, atiro-me também. A altura era muita e o meu corpo rodou. Entro mal na água e sinto-me zonza, sem reação. Estou a afogar-me. Mas, o teu irmão, que havia saltado também, quase em simultâneo, consegue pôr-me a salvo em cima de uma rocha, enquanto tenta chegar a ti, mas em vão, pois, antes de chegares à agua, já tinhas morrido com as pancadas que foste sofrendo durante a queda. Estou mal, alternando entre a vigília e o desmaio, mas ainda o vejo ao longe, com os olhos vermelhos, arrastando o teu corpo ensanguentado e morto. E ali decido que, sem ti, não vale a pena lutar por viver. E, quase sem forças, desisto, deixo-me escorregar de novo para a água, permitindo que a onda tenebrosa me enrole e me mergulhe na escuridão do meu ser. Não lhe dei luta. Deixei-me ir nela e com ela. Nada mais o Diniz podia fazer para me salvar. Não chegou a tempo. Eu queria morrer.

«Lembrei-me de tudo!» Exclamo em voz alta.

Abraçados contemplamos o mar, em silêncio, com os corações em unissono e num turbilhão de pensamentos. Ambos te sentimos, Diniz. Naquele dia e agora mesmo, ali ao nosso lado.

Num olhar profundo e penetrante, quase telepático, percebo que também tu, meu amor de alma, te recordas da nossa história, da nossa história de amor há muito tempo interrompida.

«Usa essa tua teimosia para te agarrares à vida, por ti, por todos nós! Vai! Eu liberto-te! Vai! Respira. Acorda! Vive! Eu estarei sempre por perto para te proteger, para vos proteger!»

Finalmente, entendi, Diniz, e de coração te agradeço por tudo, desde sempre e para sempre!

«Desta vez, não te deixarei morrer! Desta vez, vais viver e vais lutar para isso, ouviste? Luta pela vida! E vais ser feliz com quem sempre devias ter sido!»

E eu vivi.

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SÍLVIA SANTOS, a menina-mulher
Diz, por brincadeira, que é a Sílvia e a Aivlis — o seu nome escrito de trás para a frente. Porquê? Porque é de opostos. Voa e rasteja. Ri e chora. Reflete e descontrai. Uma menina-mulher, das que não sabem que sabem e que pensam que não sabem, mas sabem. Forte, mas resistente. Insegura, mas persistente. Com sede de viver, de sentir, de experimentar coisas novas: tanto pratica artes marciais, como salta em queda livre no meio das palavras. O que a sufoca? A monotonia. Anda constantemente em busca de novos desafios — e foi assim que veio aqui parar.