Foram anos a amar-te em silêncio

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Fotografia © Jez Timms | Cartaz © Laura Almeida Azevedo
Fotografia © Jez Timms | Cartaz © Laura Almeida Azevedo

Aquele lugar és tu. Ali, conheci-te. Ali, as nossas vidas cruzaram-se ao longo dos anos.

Aquele lugar é nosso. Ou, pelo menos, deveria ter sido.

Entrar aqui é doloroso. É um desafio impróprio para um coração quebrado, mas não tenho como o evitar. Este lugar está repleto de memórias. Vejo-te por todo o lado. Consigo ouvir a tua voz. Estás aqui impregnado. Revejo momentos, captados no passado, a desfilar pelos meus olhos. Cada canto aciona uma imagem tua.

Aqui, conheci o homem. Conheci-lhe tiques e manias, virtudes e defeitos. Vi-o crescer nos desafios a que se impôs. Vi-o revelar-se, no bem e no mal. Foi aqui que conversámos e rimos, que trocámos olhares e sorrimos. Aqui, assisti à sua alegria e entusiasmo, mas também à tua tristeza e preocupação. Foram tantas as vezes que quis cuidar de ti, que quis celebrar contigo as tuas conquistas. Mas não podia.

Estas paredes, que felizmente não falam, assistiram ao florescer de um amor, condenado à partida, mas não menos grandioso por isso. Os seus alicerces assentaram aqui, sobre este chão. Mas nada se construiu. E permanecem aqui, a degradar-se com os dias, à espera de que o tempo os deite abaixo. De vez.

Já devia ser capaz de sentir este lugar de outra forma, mas ainda não consigo. Ainda estás tão presente. São tantos os pormenores que me transportam no tempo e que me fazem reviver tudo de novo.

Nem tudo foram memórias felizes. Foi também aqui que deixaste de olhar para mim, que deixaste de falar comigo. Aqui, exilaste-me. Devia ter guardado o que sentia para mim. Sabia-o e mesmo assim arrisquei. Paguei o preço.

Por um lado, foi bom que tivesses partido, senão teria que ir eu.

Foste, mas deixaste um rasto de saudades.

Estar neste lugar consome-me, desafia-me. Tem horas em que a melancolia ganha força e arrasta-me com ela. Outras em que me apetece gritar de revolta. Gostava tanto que estas paredes contassem uma história diferente daquela que foi.

Passaram-se anos desde que te conheci e tanto aconteceu desde então. Nada é como dantes. Há uma estranheza em tudo isto. Sim, é essa a sensação. Estranheza. O sentimento do após. Após tanto, o nada.

Vimo-nos tantas vezes por aí, mas este lugar foi a maior das testemunhas. Viram sonhos atrevidos a erguer-se e lágrimas escondidas a cair. Aqui, por enquanto, ainda respiro a ti. Aqui, agora, só se ouvem os ecos de um coração que bate no vazio.

Um dia, espero também partir e deixar esta parte de mim aqui enterrada.

Foram anos a amar-te em silêncio, tendo como cúmplices estas paredes e aquelas janelas de onde se avistava um horizonte, que, apesar de belo, nunca seria comum aos dois.

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ANA PEREIRA, a inquieta
Nasceu numa noite estival, mas tem alma outonal. Convive com os números, mas encontra refúgio nas palavras. Aparenta serenidade, mas governa-a uma mente deveras inquieta. Se lhe perguntarem, é assim que se define a si própria. Aliás, estas foram palavras dela.