Hoje, digo-te adeus

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Ilustração/Cartaz © Laura Almeida Azevedo
Ilustração/Cartaz © Laura Almeida Azevedo

Dias em que chove na alma e as tristezas afloram e revolvem os pensamentos. Dias em que a saudade escorre em lágrimas. Dias assim, em que a ausência se faz presente e consome por dentro.

Ao longe avistava-se a tempestade, que se aproximava lenta e perigosamente. Era mais um dia de confusão de sentimentos e tristezas, que assolavam o seu pensamento. Ao ritmo do mar tempestuoso e revolto, assim estava ela, revolta, confusa, desejosa que a tempestade lhe revolvesse as entranhas e lhe levasse tudo aquilo que a torturava, e que, por fim, pudesse sossegar da sua penosa existência.

Estava a ouvir a chuva lá fora, na esperança de que essa chuva, que caía sem parar, levasse para longe todas as mágoas guardadas no coração, na esperança de que o sol voltasse a brilhar e de que estivesse finalmente pronta para enfrentar o mundo, com o coração leve e o pensamento limpo.

As lágrimas corriam a um ritmo frenético, pareciam ter vida própria, molhando o papel em que escrevia o que seria uma despedida para aquela pessoa que, em tempos, fora motivo do seu sorriso.

«Hoje digo-te adeus.

Decidi afastar-me de ti e não te procurar mais.

Quero alguém que tenha medo de me perder, que sinta a minha falta. Quero alguém que não diga apenas que tem saudades e que apareça do nada quando eu menos espero e me abrace com força e que, nos dias em que estou do avesso e não gosto de mim, me continue a amar ainda mais. Quero quem me faça sorrir quando estou prestes a chorar, alguém que me ame incondicionalmente nos dias bons e nos menos bons, que me segure quando estou prestes a cair e que me traga de volta se eu me afundar. Alguém assim, que simplesmente goste de mim. Quero alguém de certezas na minha vida e não alguém dominado pela incerteza de um talvez.

Sinto que não tenho importância na tua vida e as tuas dúvidas e incertezas matam um pouco de mim a cada dia. Apesar de tudo, nada fizeste para me ter de volta, fazendo-me assim acreditar que tomei a decisão certa. Fiz tudo por ti e tu nada por mim foste capaz de fazer.

Agora a minha vida vai seguir, um dia de cada vez, com muitos dias de tempestade, mas com a esperança de que, um dia, vou acordar e já não vai doer mais como hoje me dói.

Resolvi-me pelo silêncio, pois percebi que não me querias ouvir. Deixei de me importar, pois para ti parecia não ter valor. Deixei de te dar o meu melhor, pois de ti sempre tive o pior. Deixei de te dar importância, pois nunca te importaste comigo. Deixaste de ser a minha primeira escolha, pois para ti sempre fui a última. Deixei simplesmente, tal como tu fizeste comigo.

Não vou mais escolher quem também, na verdade, nunca me escolheu. Nunca escolhi amar-te, mas escolho, agora, todos os dias, tentar esquecer-te.»

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HELENA ISABEL, a misteriosa
Nasceu em dezembro de 1983. Diz-se uma «exploradora da vida». Gosta de ler, de escrever e de pintar. Não da pintura dos guaches e dos pincéis. Mas da pintura com as palavras. É apaixonada, irreverente e sensível a tudo o que a rodeia. Prefere um segundo de realismo a uma eternidade de sonhos.