Os livros da biblioteca da minha vida

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Fotografia © Gaelle-Marcel | Cartaz © Laura Almeida Azevedo
Fotografia © Gaelle-Marcel | Cartaz © Laura Almeida Azevedo

Estava a caminhar num campo verde, com árvores centenárias e uma cascata ao fundo, quando me deparei com uma construção antiga, parecida com uma igreja, daquelas altas de estilo gótico, muito bonita. Tinha uma porta enorme bordeaux e uma fechadura em ferro forjado, carregando em si o desgaste do tempo.

Aproximei-me. Abri a porta. Era muito pesada e rangia.

Entrei. Não vi ninguém.

Olhei em volta e deparei-me com várias estantes com livros. Eram milhares. De todas as cores, tamanhos e feitios. Uns mais antigos do que outros. Saltava à vista o nome de várias secções: família, amor, estudo, trabalho, amizade, dinheiro…

Corredor após corredor, fui observando, tocando, sentindo o cheiro e captando a essência daquele lugar antigo, desconhecido, mas ao mesmo tempo familiar. Percebi que aquela era a biblioteca da minha vida.

Observei os livros na secção da família. Alguns estavam fechados para sempre. Eram as memórias e as vivências daqueles que já partiram. Outros estavam a ser escritos. Outros ainda estavam vazios, à espera de serem escritos, com as histórias dos filhos que irei ter um dia.

Existiam outros tantos na secção do amor, com capítulos terminados. Mas reparei num aberto sobre uma mesa. Está à espera do grande capítulo, o que irá preencher a maioria das páginas, quando encontrar o amor da minha vida.

A secção das viagens tinha ainda poucos livros. Mas tinha bastante espaço para outros tantos. Livros abertos, páginas vazias, à espera de serem escritas. Com as muitas viagens que quero fazer.

A secção da amizade era longa. Eram tantos, mas tantos livros. Uns com histórias terminadas. Mas muitos com páginas por escrever, capítulos por terminar, outros por começar.

Ao fundo, junto a uma janela, vi um senhor já velhote, de cabelo branco e enrugado, iluminado pelos raios de sol que trespassavam o vidro. Estava a escrever. Aproximei-me: «Olá. Sou a Carina.» Sorriu e respondeu: «Eu sei.» Perguntei: «O que está a escrever?» «Estou a escrever no livro dos teus sonhos. Esses…» Suspirou. «Esses dão-me tanto trabalho. Todos os dias tens novos sonhos. E eu tenho que registar todos para que nunca te esqueças deles. Para que continues a lutar, dia após dia, para os concretizares. Para que, um dia, os possa escrever no livro dos sonhos concretizados.»

Acordei. Sorri.

Afinal, tinha mais um dia para concretizar os meus sonhos.

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CARINA MAURÍCIO, a fotógrafa
É budista e conservadora-restauradora. É de riso e choro fáceis. Tem tanto de sensível, quanto de corajosa e lutadora. Adora fotografar, jogar ténis e viajar. Viciada em comida, é fã de comida italiana. Gosta de dormir, de café, de chocolate. Dançar? Pode ser a noite toda. Mas também gosta de ficar na ronha, em casa, entre filmes e pipocas. Adora o som da chuva a cair no inverno e o som do mar em dias de verão. Campos floridos enchem-lhe o olhar, assim como as cores das folhas do outono. Apaixona-se facilmente e é uma apaixonada pela vida. Uma geminiana pura.