A coragem de (não) saber ficar

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Fotografia © Omar Prestwich | Cartaz © Laura Almeida Azevedo
Fotografia © Omar Prestwich | Cartaz © Laura Almeida Azevedo

Sempre me perguntei de onde vem a coragem. A coragem para fazer a coisa mais difícil do mundo. A coragem para dizer tudo o que sentimos. A coragem para não dizer absolutamente nada, quando temos tanta coisa para dizer. E a coragem para, simplesmente, virar as costas ou ficar no mesmo sítio quando tudo se desfaz.

Pergunto-me, tantas vezes, de onde vem a coragem, que talvez já tenha esbarrado com a resposta certa umas tantas outras vezes.

Talvez a coragem esteja exatamente em todas aquelas coisas pequenas, e aparentemente insignificantes, que fazemos quase todos os dias. Naqueles momentos em que o nosso coração aperta um bocadinho mais – como se, por segundos, tivesse sido esmagado –, por termos feito o que devíamos. São aqueles momentos em que viramos costas com determinação e juramos olhar para trás apenas quando for seguro não olhar mais ninguém nos olhos. Ou os momentos em que olhamos para trás, a tremer, por não sabermos se alguém ainda lá está à espera para nos acenar pela última vez. Ou, então, quando temos que saber ficar exatamente onde estamos, em vez de correr para quem mais queremos; quando temos que ficar sem todos os abraços que queremos (e de que precisamos) e quando todos os discursos se transformam em longos sorrisos que, esperamos nós, cheguem ao outro lado a gritar «não, não tenho nada para dizer».

A coragem é uma coisa esquisita, porque, na maioria das vezes, é cobarde e faz-nos ficar onde estamos. Exatamente onde estamos. Exatamente onde temos que estar. Exatamente onde precisamos de estar.

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CATARINA ANDRADE, a psicóloga a bordo
Tem 27 anos. É psicóloga de formação e assistente de bordo de profissão. Sempre gostou de escrever e, se lhe perguntarem, não se lembra de quando o começou a fazer. Como sempre foi muito crítica para consigo própria, deitava fora quase tudo o que escrevia. Agora, vai-se deixar disso. É este o desafio.