Desculpem, meus pequeninos!

Texto vencedor | «Uma cartaz de despedida»

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Fotografia © Andrew Branch | Cartaz © Laura Almeida Azevedo
Fotografia © Andrew Branch | Cartaz © Laura Almeida Azevedo

Desculpem! Assim tenho que começar esta carta que vos deixo.

Quero que saibam que a vida, por vezes, é cruel e, por vezes, somos nós os cobardes. A vida coloca à nossa frente desafios, onde temos de tomar decisões dolorosas, mas somos cobardes por não os sabermos enfrentar. Nunca se esqueçam que as dificuldades da vida têm que ser enfrentadas com muita coragem. Nunca desistam dos vossos sonhos, daquilo que vos faz felizes por inteiro.

Meus pequeninos, meus filhos, que tanto amo, desculpem!

Depois de um início de vida em que tudo parecia fácil e onde nada fazia prever o que aí viria, vou-me embora e não sei se para sempre!

Estou cansada! Estou esgotada! Estou sufocada!

Desculpem, meus pequeninos!

Podia dizer que o amor pela pessoa que também vos deu a vida acabou, mas, na verdade, não era amor. Talvez comodismo, amizade, estabilidade e carinho, mas nenhum ser humano consegue viver uma vida assim, sem sentir o verdadeiro amor. A carne do nosso corpo foi rasgada e ficou com feridas que nunca mais serão saradas. Vai sempre doer. Sempre! Nunca se esqueçam que, quando o amor acaba, tudo se destrói aos poucos à nossa volta.

Desculpem, meus pequeninos!

Sou infeliz e admito que parte é culpa minha. Por isso, não posso levar comigo nesta caminhada infeliz dois seres tão pequeninos que merecem o melhor do mundo. Sou cobarde, tanto, ao ponto de não querer viver, mas ainda mais porque ainda vivo e, então, é mais fácil fugir e deixar que vocês sejam felizes. A minha obrigação é proteger-vos e não estou a ser capaz de o fazer. Preciso de recuperar as forças. Preciso de ajuda. Preciso de ser inteiramente feliz comigo própria.

Um dia, hei de voltar. Não sei quando, nem como, porque ainda não fui e já sinto medo. Medo de que, no regresso, seja rejeitada e incompreendida! No fundo, eu não quero ir. Acreditem!

Agradeço a Deus a dádiva de ser mãe e ser amada da forma mais pura que a vida me deu. Ter o vosso amor deveria ser o suficiente para travar esta luta com o meu interior, que está perdido. Tenho tanta vergonha desta cobardia.

Quero que entendam que preciso de paz interior e de começar do zero, com um início de vida ao vosso lado. Quando tiver tudo reunido, hei de voltar. Não sei quando, nem como. Peço-vos que, nesse dia, seja recebida com um abraço e que me perdoem.

Estou cansada! Estou esgotada! Estou sufocada!

Amo-vos de uma forma incalculável. Um amor puro, bonito e de grande respeito. Amo-vos como uma mãe sabe amar, para lá do imaginário. Amar-vos é o melhor da vida, o melhor do mundo. Por vocês, vou ganhar a força que perdi e a coragem que devia ter tido. Por vocês, vou mostrar ao mundo que o amor de mãe supera qualquer dor que podemos sentir.

A minha única certeza é que o nosso amor nunca será perdido, nem esquecido, porque o amor de mãe vive eternamente.

Amo-vos, meus filhos.

Desculpem!

Até breve, meus pequeninos!

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MATILDE GOMES, a emotiva
É sonhadora — tanto que, desde há muito, tem uma lista de sonhos a realizar — e é a viajar que quer iniciar a sua aventura pela vida. Apaixonada pela leitura, é na escrita onde se sente livre, tendo sempre presente o amor e a dor. O seu interior é um turbilhão de emoções, onde reside as lágrimas e os sorrisos. Para a Matilde, o abraço é o gesto que melhor revela os sentimentos.