Ainda me dóis todos os dias

886
Ilustração/Cartaz © Laura Almeida Azevedo
Ilustração/Cartaz © Laura Almeida Azevedo

Os dias amanhecem sempre cinzentos, num nevoeiro cerrado e numa brisa arrepiante. Há qualquer coisa de triste na cor que envolve, dia após dia, o azul do céu.

Sabes que ainda me dóis todos os dias? Depois de tantos meses de ausência, ainda me assusta o nascer do dia e o interior da casa que já foi nossa. Sem ti, os dias não são dias. São meras horas que não passam. Sem ti, as casas não são casas. São meras quatro paredes a proteger um interior. A nossa cama ganhou uma dimensão incrível e, sempre que me deito, sinto-me uma minoria naqueles lençóis que já testemunharam o prazer da nossa carne.

Sabes que ainda me dóis todos os dias? Quando percorro os sítios que já foram nossos e me sinto prestes a implorar a tua presença. Quando ouço as nossas músicas e, a cada nota, as lágrimas escorrem sem pedir autorização. Quando leio as tuas cartas e cada palavra dói tanto como uma facada no coração. Quando passa alguém na rua com o cheiro do teu perfume e sinto-me morrer por dentro.

Sabes que ainda me dóis todos os dias? Quanto te imagino com outra e tento adivinhar a intensidade dos beijos, as carícias no cabelo e os abraços sufocantes. E as palavras e os silêncios? Dir-lhe-ás, com a mesma convicção, que a amas eternamente?

Sabes que ainda me dóis todos os dias? Sempre que vejo a nova edição da revista que tanto lias e não te posso mandar uma mensagem com a fotografia. Sempre que vejo novidades nos cartazes dos festivais de verão e não te posso dizer que já comprei os nossos bilhetes. Sempre que descubro um novo restaurante e não te posso convidar para jantar.

Ainda me dóis todos os dias e, sem ti, os dias também anoitecem sempre cinzentos.

Comments

comments

PARTILHAR
Artigo anteriorHá quanto tempo não nos amamos?
Próximo artigoDesculpem, meus pequeninos!
RAQUEL FERREIRA, a engenheira
É de uma aldeia perdida no norte do país e ambiciona ser mestre em Engenharia Civil. No percurso, apaixonou-se pelas palavras e escreve. Sobre tudo. Sobre nada. Ainda não é tudo o que quer ser, mas luta todos os dias por isso.