Não receies chegar ao teu lugar

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Fotografia © Leeroy | Cartaz © Laura Almeida Azevedo
Fotografia © Leeroy | Cartaz © Laura Almeida Azevedo

Toquei a porta entreaberta. Quando a tentei abrir, fez aquele ruído próprio. Já não era aberta há muito, muito tempo. Fez aquele ranger de um tempo longínquo de reis e rainhas, daquelas vestes compridas que tapam todo o nosso corpo, de batalhas e guerras onde só um podia vencer, onde um teria obrigatoriamente de morrer.

Um misticismo entre o querer, o poder, o dever e o conseguir alcançar.

Deu-me um frio na barriga ao pensar no que poderia estar para além daquela sala escura e fria, mas com aquele intenso aroma de frutos silvestres, como se uma compota de amora estivesse a ser preparada naquele fogão velho coberto de pó cinzento…

O desconhecido sempre me fez sentir assim.

— Está aí alguém?

As palavras balbuciadas por mim fizeram-me estremecer por dentro. E se estivesses lá? E aquele aroma? Enfeitiçava-me de uma forma estranha… Fiquei baralhada, sentindo um misto de sensações, uma angústia dentro do peito, um medo terrível misturado com uma felicidade diferente, que gritava dentro da minha alma! Ansiava encontrar-te lá, sabes.

Esqueci tudo, até o medo de te encontrar dentro daquela sala sombria, envolto num papel cujo laço te apertava o corpo, não te deixando libertar e sair das amarras sem cheiro, sem gosto, sem nada… Sem vida.

As teias de aranha mágicas e brilhantes encantavam-me, deixando-me até hipnotizada. Envolviam o sofá preto e roto que estava junto à lareira acesa, mas como poderia haver calor naquele ambiente? Perguntava-me incessantemente, mas tinha de haver lá alguém, porque o aroma a frutos silvestres estava cada vez mais próximo de mim…

Vagueei por uma escada que dava para o sótão. Os degraus mexiam-se e rangiam, tais como a porta, quando entrei. E rangiam tanto e gritavam-me ao ouvido: «Sobe. Estás quase lá…» Era estranha esta sensação…

É tão inconstante quando caminhamos fora da nossa zona de conforto, não é? É tão atormentador quando queremos chegar lá, àquele sitio onde nunca estivemos, mas onde a nossa alma nos implora para ir, nos chama e nos atormenta a própria razão! É tentador, não é? Aquele frio na barriga que sentimos, quando pensamos que queremos escancarar a porta que range, mas não temos coragem…

Cheguei, por fim, ao sótão, ao sítio onde estão as minhas dúvidas. Os meus anseios e os meus devaneios estavam tão sorridentes e confiantes a olhar para mim. Mas eu queria era encontrar-te. O teu sorriso alimenta-me!

A mesa estava posta. Café acabado de tirar, pão quente e aquela compota de amoras silvestres. Afinal, aquele aroma que me enfeitiçava era real. Eu bem sabia! A lareira estava acesa. O fogo iluminava todo aquele espaço encantado e aquecia a minha alma e o meu sentir!

Sabes o que fui descobrir naquele sótão salpicado de emoções? Naquele sótão: palco de casais apaixonados, que transformavam o desejo em amor; de amantes, que faziam juras de amor e se entregavam ao desejo de corpo e alma; de famílias, que partilhavam as refeições; de amigos, que brindavam à felicidade; de mães, que dedicavam todo o seu amor incondicional aos seus filhos; de crianças, que liam e aprendiam uma lição nova?

Que a chama daquela lareira estava em mim, em ti, em cada um de nós. Que, apesar daquela desconhecida sala fria e escura, daquele pó cinzento que cobria o sofá velho, daquele frio na barriga até te encontrar, haverá sempre um sótão na nossa vida, haverá sempre o calor que nos alimenta a alma, haverá quem nos aqueça o corpo, haverá um sofá velho, cujas teias de aranha podemos transformar em fios dourados e subir por eles até chegar lá, àquele sítio por que ansiamos!

Sabes o que descobri também?

Que quem procurava, naquele sítio sombrio, era eu, e que aquele eu apagado morreu, tal como o rei que perdeu a guerra em tempos longínquos!

Quem ganhou a Guerra dos Tronos? Eu, que subi as escadas rangentes da sala escura tentando encontrar o sótão do sentir, onde ainda se ouviam gemidos de prazer, sorrisos de crianças felizes e onde se podiam sentir as lágrimas de quem enfrentou os desgostos da vida, aquele sótão do viver! Eu, que bebi o café acabado de tirar, que comi o pão quente e que provei, que me deixei enfeitiçar pela compota de amoras.

Esse eu sou eu, és tu, somos nós! Isto de te falar ao ouvido tornou-se um vício, sabes?

És o teu fogo, a tua chama! Não receies chegar ao teu lugar, àquele lugar que a tua alma reclama. Não deixes que nada, nem ninguém apague a tua chama natural.

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DORA NUNES, a Cinderella
Tem 37 anos e vive em Ponte do Sor — uma «cidade alentejana», diz, «de gente de alma gigante». Trabalha como administrativa num lar de idosos e canta numa banda. Duas terapias que a fazem sentir-se feliz. A escrita surgiu na adolescência. Era uma miúda tímida, com os medos e os anseios tão típicos da «idade do armário». Na escrita, libertava-os, soltava-se. Um desejo? Que cada palavra sua toque o mundo de quem a lê. Sente que a sua missão é ajudar os outros e acredita no lado bom de todos nós. Quem é ela? É a nossa Cinderella!