Estás aqui para mim

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Ilustração/Cartaz © Laura Almeida Azevedo
Ilustração/Cartaz © Laura Almeida Azevedo

Estou acordada algures na madrugada. Lá fora cai uma chuva de final de verão. Os dias ainda são quentes. As noites, se bem que suportáveis, já agradeciam uma brisa mais fresca. De vez em quando, um raio de luz atravessa a escuridão.

Um calafrio atravessa-me o corpo. Penso no dia de amanhã e nos seguintes, nos desafios que me esperam. Ando às voltas há horas totalmente desperta por este desassossego.

A minha inquietação acaba por acordar-te. A tua mão toca-me no ombro e aí depositas, carinhosamente, um beijo. «Sabes que não tens que passar por isso sozinha, não sabes? Sabes que estou aqui?», perguntas-me em sussurro ao ouvido. «Sei que sim», respondo-lhe no mesmo tom. O que me vale é isso. Desta vez, não estou só. Tenho-te a ti. Tenho quase tudo. Pudera eu viver só de ti e teria tudo.

Viro-me para ti. Sorrio-te mesmo que não me vejas na sombra da noite. «Tens de descansar. Vai ser ainda mais difícil enfrentares o que aí vem se não tiveres forças», advertes-me. Suspiro profundamente, dando-te razão de certa forma.

Mergulho nos teus braços e aninho-me no teu corpo. Os teus dedos brincam com o meu cabelo. Conheces bem o jeito de me fazer adormecer. De me sossegar. Por mim, ficava assim até a vida deixar de me doer. Junto a ti. Pele com pele. Despidos de barreiras, de medos e de dúvidas. Sem armaduras, nem defesas, e mesmo assim seguros. O contacto com a tua pele conforta-me. O seu calor envolve-me e aconchega-me. O teu peito sobe e desce contra o meu, embalando-me ao ritmo da tua respiração.

Aperto-te mais contra mim. Não quero sair daqui. Não quero encarar o dia. Deixa-me ficar aqui contigo até a tempestade lá fora passar, até o inferno que me aguarda desistir de mim.

Continua a trovejar do outro lado da janela. O tempo esvai-se com a chuva. E não há muito mais a fazer senão deixar-me vencer pelo sono. Dar-me o merecido e necessário descanso antes da batalha. E esperar pelo melhor.

O que me vale é que estás aqui para mim. E, enquanto os raios rasgam o céu lá fora, adormecemos. Desprotegidos perante o mundo, mas seguros no amor.

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ANA PEREIRA, a inquieta
Nasceu numa noite estival, mas tem alma outonal. Convive com os números, mas encontra refúgio nas palavras. Aparenta serenidade, mas governa-a uma mente deveras inquieta. Se lhe perguntarem, é assim que se define a si própria. Aliás, estas foram palavras dela.