Depressão: Um monstro anda à solta

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Ilustração/Cartaz © Laura Almeida Azevedo

Um monstro anda à solta. Ninguém o consegue apanhar. Ninguém o consegue dominar. Ninguém o consegue extinguir. A única coisa que podes fazer é ser forte e evitar que ele te ataque.

Depressão é o nome deste monstro.

Encontrei um rascunho que escrevi há 10 anos, quando me deixei apanhar por este monstro.

«Sinto-me só! Sinto que não faço parte do mundo. Não há um sítio onde me sinta bem. Confundem-se os mundos, os pensamentos, as emoções. Já não há o meu mundo. Que será que aconteceu? O meu quarto… Parece que me prende num sufoco insuportável! As pessoas não me compreendem e eu afasto-me, cada vez para mais longe… Mas continuo sem encontrar o meu mundo. Na praia, as águas assustam-me e afogam-me na tristeza. São profundas e escuras. O sol não ilumina, não aquece. Sinto-me confusa. Que aconteceu? O vento, que agita as árvores, faz-me sentir nua e desprotegida. A borboleta, que esvoaça, faz-me doer o pensamento. Onde poderei eu me sentir bem? Este não é o meu mundo. Cada vez mais, a tristeza se espalha em mim, a dor transborda todo o meu corpo e eu só queria um espaço para chorar à vontade. Mas que espaço é este de que preciso e não encontro? As lágrimas acumulam-se e cada vez procuro mais e mais, e fico desesperada. Rendo-me à solidão, ao mundo negro que me impregna de ódio. O meu coração para e chora. Chora com as palavras que entoam na minha cabeça, que me chamam para o meu ser. Ajudem-me! Estou desesperada. Quero um sítio onde me sinta quente e protegida, onde possa pensar que tudo isto vale a pena. Onde possa ver as estrelas. Este mundo não é o meu. Não existe espaço para mim. Dói muito. Só quero chorar! Ficava alegre se pudesse observar a beleza do mundo, tal como os outros. Ficava alegre se conseguisse ser uma pessoa normal. Se pudesse sentir que tudo tem uma razão de ser. Enquanto isso, fico na solidão, na profundeza da noite escura e tempestuosa do meu pensamento, rendida ao desespero, ao medo de viver. Não deixem nunca que vos tirem o vosso espaço no mundo, o espaço que foi vosso desde sempre. Porque depois para o conquistar é preciso muito sofrimento, é preciso atravessar um túnel bastante longo, trepar um poço muito fundo, superar uma tristeza sem fim, e que magoa muito. E, quando deixamos de viver, nada mais faz sentido. Sinto-me só.»

Hoje, pergunto-me: como podia eu estar num lugar tão escuro?

A depressão é uma doença muito séria. A depressão é uma doença do presente. Muitos de nós já passaram ou estão a passar por isso. Não é uma brincadeira e precisa de acompanhamento médico.

Não me orgulho desta fase da minha vida, mas não controlamos. Entramos sem saber como. Pouco a pouco, os dias tornam-se mais tristes, as lágrimas inundam os nossos dias, e não vemos outra saída senão a morte. A vida deixa de fazer sentido. Sentimos tristeza, medo, pessimismo, baixa autoestima, insegurança, angústia. Não sabemos sentir de outra forma. Não conseguimos ter ânimo para a vida. Não conseguimos ver beleza em nada. Não conseguimos ter força para sair da cama.

E como sei, na primeira pessoa, a capacidade de escondermos os nossos sentimentos e respondermos, sempre com um sorriso, «está tudo bem»; como sei da nossa capacidade de nos afastarmos cada vez mais e mais, até não haver retorno, até já não termos controlo sobre a nossa mente; como sei que esse monstro se apodera de nós, peço-te, por favor: se estás nesta situação, que não fiques sozinho. Peço-te, por favor: procura ajuda!

Quando vivi isto, vivi sozinha, vivi-o durante muitos anos, não o partilhei, sofri em silêncio. Mas houve um dia que tive coragem de procurar ajuda. O dia em que tive que optar entre a morte ou a ida ao hospital psiquiátrico, pedir ajuda e admitir que não conseguia mais viver assim…

Por favor, acredita em ti. Acredita que és um ser cheio de potencial. Acredita que és único/a e tens uma missão nesta vida. Acredita que a vida é uma dádiva. Acredita que podes ser feliz. Acredita que podes crescer no meio da adversidade. Acredita que é possível ver o mundo de outra forma.

Nunca deixes de sonhar. Nunca desistas. Faz e sê sempre o melhor que sabes. Ama as pessoas à tua volta. Tem fé em ti. Sabe que serás sempre amado/a.

Vive, acredita, reinventa-te, explora possibilidades, sê criativo e ama-te.

Se eu consegui, tu consegues! Acredita. Estou contigo. Estamos juntos/as.

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CARINA MAURÍCIO, a fotógrafa
É budista e conservadora-restauradora. É de riso e choro fáceis. Tem tanto de sensível, quanto de corajosa e lutadora. Adora fotografar, jogar ténis e viajar. Viciada em comida, é fã de comida italiana. Gosta de dormir, de café, de chocolate. Dançar? Pode ser a noite toda. Mas também gosta de ficar na ronha, em casa, entre filmes e pipocas. Adora o som da chuva a cair no inverno e o som do mar em dias de verão. Campos floridos enchem-lhe o olhar, assim como as cores das folhas do outono. Apaixona-se facilmente e é uma apaixonada pela vida. Uma geminiana pura.