Levaste tudo o que restava

740
Fotografia © Brooke Cagle | Cartaz © Laura Almeida Azevedo
Fotografia © Brooke Cagle | Cartaz © Laura Almeida Azevedo

O céu estava a ficar carregado. A brisa suspirava sensações frescas. Comecei a perceber isso na tua pele. O teu corpo tremia, e os olhos fundos fitavam o infinito. Fui buscar um cobertor para te aquecer. Gemeste e afastaste-me bruscamente.

— Calma. — Disse eu, prontamente. — É só um cobertor.

O teu ar assustado dava-te um jeito sensual. Esse ar que eu adoro. Olhos penetrantes, a pele corada, o cabelo desgovernado… O que nem era normal, de tão certinha que sempre mostravas ser. Mas, nessas alturas, a figura era o menos importante. Eras tu assim, sem rodeios, sem montras, sem preocupações.

— Sabes? — Falei assim, num tom desmaiado. — Gostava que a vida fosse tão mais fácil.

— Fácil? Fácil como? — Perguntavas tu com ar espantado.

— Assim, sem medos. Sem dores. Sem balas perdidas. Sem ódios. Sem lágrimas. Sem espinhos nas rosas. Sem dores de barriga. Sem borboletas no estômago.

— Sem borboletas? Ai, assim, nem sentes nada!

— Sinto, sim. Não são as borboletas que nos alimentam, sabias?

O teu ar de espanto deixou a pergunta feita…

— Não são, não! O que nos alimenta somos nós. O nosso coração. A nossa capacidade de guardar na memória as coisas boas.

— E tens coisas boas na tua memória? — Perguntaste logo, de rompante.

— Claro que sim. Lembro-me tão bem como se fosse hoje do brilho nos teus olhos, das bochechas rosadas quando coravas, do suspiro lento nos meus ouvidos, da tua pele suave, do sorriso, das covinhas, dos lábios… Ah, quando mordias os lábios…

Inefavelmente, apenas moveste as tuas mãos de encontro às minhas. Estavas escorregadia. Suavas como no dia em que te despediste de mim «para sempre», disseste tu. No entanto, ali estávamos os dois, frente a frente. Os teus olhos não largavam os meus na esperança de uma resposta, de algo que te fizesse avançar.

Acabaste por levar o cobertor contigo. Levaste muito mais do que um simples cobertor. Levaste tudo o que restava.

E esse «cobertor», hoje, faz-me falta…

Comments

comments

PARTILHAR
Artigo anteriorO melhor da vida é amar-te
Próximo artigo(Des)Encontros I
NUNO CORREIA, o desportista
Tem 36 anos. Nasceu em Coimbra. É um apaixonado pelo desporto e pelo ar livre. Descobriu o gosto pela escrita no dia em que deixou de acreditar no amor... Ou, aqui entre nós, talvez não.