A solidão é o espelho da vida

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Ilustração/Cartaz © Laura Almeida Azevedo
Ilustração/Cartaz © Laura Almeida Azevedo

A solidão, que me atormenta, é a companhia de que preciso para perceber quem sou.

Sim, eu sei que sozinha nada serei. Mas preciso de encontrar aquele caminho que me leva ao que eu sou. Preciso de me encontrar. Ao virar de uma qualquer esquina. Tenho que perceber que sou eu, que estou refletida no espelho da vida. Tenho que reconhecer a minha alma. Encontrar o meu corpo, que anda por ai perdido, sem saber que rumo tomar.

A solidão persegue-me, porque tenho a alma a transbordar. Excesso de dúvidas, que a solidão pode roubar. Contrariando tudo o que o mundo não me quer ensinar.

Com a solidão tenho que aprender a estar comigo. Aprender sozinha a escolher um caminho, sem medo de errar. O erro só existe porque eu tenho dúvidas. Se errar agora, na próxima tenho que acertar.

Afinal, a solidão também pode ser uma lição. Pode ensinar-me tudo o que o coração não quer ver. Mostrar-me que de nada vale correr atrás de quem não me quer. Que não vale a pena esforçar-me por quem não sente a minha falta. Se os outros vivem em ninhos diferentes do meu, não posso voar no céu deles. Se navegam em barcas diferentes da minha e temos rotas opostas, nunca nos iremos encontrar. Temos que aprender a caminhar sozinhos, para descobrirmos a nossa verdade. Virar as costas a quem nos ignora, sem medo da rejeição.

Talvez seja até a própria solidão que nos coloca frente a frente com a vida. Assim, podemos rever-nos na alma uns dos outros. Uma tentativa da vida para nos mostrar que os outros são tão iguais a nós. Têm dores iguais às nossas, sonhos parecidos com os nossos. Só tenho que me conhecer para perceber que o sofrimento dos outros é, em tudo, igual ao meu. Somos todos iguais e todos diferentes. Todos frágeis e sensíveis, mas com resistência às dores. São elas que nos fortalecem.

É por isso que a solidão nos une, mas também nos separa. Na solidão, procuro braços que me confortem, com abraços silenciosos que me dizem tudo o que preciso escutar. Na solidão, há outros que procuram as minhas palavras que lhes servem de abraços para a alma, secando assim a fonte dos seus lamentos.

Sozinhos nada somos. É esta caminhada que nos traça o percurso sinuoso que vamos fazendo pela vida. E quantas vezes, com a solidão, descobrimos quem nunca sonhávamos encontrar. Pessoas que nos parecem o reverso da nossa medalha, mas que, quando tocam a nossa solidão, nos mostram que são a metade da nossa laranja.

Seremos sempre assim. Opostos que se aproximam. Diferenças que nos juntam. A solidão, que se faz de companheira, na descoberta do caminho para a felicidade.

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ANGELA CABOZ, a miúda gira
Nasceu em Tavira há 49 anos. Desde a adolescência que é uma apaixonada pela leitura, pela escrita, pelo cinema e pela música. Escreve sobre sentimentos e, nas palavras, reflete a maneira de ver e de sentir o mundo. Em 2014, realizou um sonho: a publicação do seu livro «À procura de um sonho». Desde então, tem participado em várias obras coletivas.