Querem que as mulheres sejam parvas

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Fotografia © Raquel Ferreira | Cartaz © Laura Almeida Azevedo
Fotografia © Raquel Ferreira | Cartaz © Laura Almeida Azevedo

Fico apavorada a cada notícia que surge na televisão, na página do jornal, na página da revista. Mais uma mulher morta, vítima de violência doméstica. Mais uma, a somar a tantas outras, quando a única conta possível deveria ser a de subtrair. Quantas mulheres mais precisarão de morrer para se perceber que a violência é a grande epidemia deste século? Daquelas sem fim à vista e sem ensaios de laboratório para encontrar a cura.

«Entre marido e mulher não se mete a colher.» Pois, não. Não é a colher, nem o garfo, nem a faca. É a polícia ou qualquer entidade competente capaz de evitar o pior. E o pior é, sem sombra de dúvidas, a morte. E não. Não me refiro à morte no sentido literal da palavra. Não me refiro à ausência de respiração, dos batimentos cardíacos e da atividade do cérebro. Refiro-me à morte psicológica. Porque, mesmo vivos, é possível estarmos mortos. Que vida é, afinal, a de uma mulher maltratada, desprezada, ofendida, violentada? Que vida é a dela? Viver uma vida à mercê de um homem e desprovida de objetivos é um vazio igual à morte.

Espera-se que as mulheres sejam parvas. Que cozinhem, arrumem, façam as compras de casa, que procriem, cuidem dos filhos e ainda que levem porrada. Porrada física e psicológica. Pior do que as nódoas negras, que se escondem com maquilhagem e óculos escuros, são as palavras. E para essas não há cosméticos de última geração que escondam os hematomas, nem transplantes de coração que resolvam a inaptidão de um coração ferido. Maior do que a dor de um murro, ou de uma palavra feia, é a dor de um coração ferido.

Depois, chegam as justificações. «Ela andava com outro.» «Tinha ciúmes.» «Não fazia os deveres de mulher.» Ciúmes? Deveres de mulher? Isso dá direito de agredir, matar? Nem aqui, nem na China. E o que é isso de deveres de mulher? O único dever da mulher é ser independente. O problema é que mulheres independentes provocam medo nos homens. E os homens com h pequeno fogem com o rabo à seringa, quando veem uma mulher com M grande. Ora, onde é que já se viu uma mulher que ganha mais do que o marido? Uma mulher que não tem tempo para a lida da casa? Uma mulher que não faz sexo, quando ele quer, porque está cansada? É humilhante dizer isso aos amigos no café.

Ainda há uma enorme parcela, nesta nossa sociedade, de machistas. E essa deveria ser a única espécie em vias de extinção.

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RAQUEL FERREIRA, a engenheira
É de uma aldeia perdida no norte do país e ambiciona ser mestre em Engenharia Civil. No percurso, apaixonou-se pelas palavras e escreve. Sobre tudo. Sobre nada. Ainda não é tudo o que quer ser, mas luta todos os dias por isso.