Tomei a liberdade de te falar ao ouvido, posso?

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Fotografia © Redd Angelo | Cartaz © Laura Almeida Azevedo
Fotografia © Redd Angelo | Cartaz © Laura Almeida Azevedo

Naquela tarde, decidi fazer-me ao caminho. Teria de esquecer todas as lembranças que me faziam lembrar de ti. Teria de encerrar-te em mim…

Quando chegamos à conclusão de que o capítulo — aquele capítulo, não toda a novela da vida — tem de findar, há em nós um turbilhão de sentimentos, um misto de saudade e de ansiedade que nos invade, por dentro, como se nos arrancasse todas as certezas! Aquelas certezas que, durante a nossa eternidade, fizeram parte integrante do nosso Eu. Aquelas que nos completaram, que nos fizeram ser, simplesmente, inteiros.

Inteiro. Aí está a palavra que me define. Completamente inteiro de tudo, de amigos, de amor, de sentimentos, de emoções… e de todas aquelas coisas que nos fazem viver bem e melhor, que não se pagam, mas que nos compensam tanto. Naquele dia, em que te arranquei, ou melhor, em que tentei arrancar-te de mim — e a todas as emoções à flor da pele sempre que me lembrava da nossa eternidade, das nossas almas juntas como se fossem uma só, dos corpos unidos pela intensidade de momentos —, fiz uma espécie de luto interior. Precisava de passar à frente, de subir o degrau das incertezas, das angústias, das esperas intermináveis de mais momentos inesquecíveis. Sim, porque todos os nossos momentos eram assim, mágicos, desde o simples toque no cabelo até ao enrolar dos corpos pelo chão da sala, sempre que tínhamos oportunidade.

Todo eu me despia de preconceitos e tentava encontrar uma razão para aquele rebuliço d’alma!

Tentei dominar todas as teorias, todos os conceitos científicos, mas não dominei o toque d’alma humana, e tu tocaste a minha de uma forma atroz e, naquela tarde, tentei que todo aquele toque fugisse de mim, de nós.

Mas, sabes, não consegui. Simplesmente não consegui fugir de mim, de nós e eis que, agora, olho-me ao espelho e vejo lá o teu reflexo. O teu sorriso diz-me bom dia, boa tarde, boa noite. Enfim, está comigo, cravado e gravado em mim, como se fosse um lacre dos pergaminhos que fizeram parte da melhor e da maior história mundial! E não é que a nossa história também será considerada, por nós, uma das maiores histórias de sempre e um dos maiores feitos mundiais? É esse o alimento da alma, intensificada por mim, por ti e por nós!

E tu, aí? Pensas que esta é a minha história? Não, é a tua história, que estás a ler e te revês nela, neste amor incondicional, nestas decisões momentâneas e simultâneas, neste estado de euforia, misturado com a fita de cetim cor púrpura, e que anseias que se torne num amor sem fita, sem amarras, sem formatos, e que a amas mesmo no momento em que decidiste deixá-la ir…

Tomei a liberdade de te falar ao ouvido, posso?

Podes amar tudo. Podes amar todos sem amarras. Podes desbravar os terrenos mais íngremes desta escalada de cores que é a vida. Podes querer sem limites. Podes deixar ir, deixar ir o amigo que nunca o foi, o conhecido que te sorri no rosto e que gosta de apedrejar pelas costas, aquela situação que te deixa desconfortável. Podes deixar ir tudo, até aquela história que não te enche as medidas, mas que te alimenta o ego. Mas nunca, nunca te deixes ir a ti.

É isto. A ti não!

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DORA NUNES, a Cinderella
Tem 37 anos e vive em Ponte do Sor — uma «cidade alentejana», diz, «de gente de alma gigante». Trabalha como administrativa num lar de idosos e canta numa banda. Duas terapias que a fazem sentir-se feliz. A escrita surgiu na adolescência. Era uma miúda tímida, com os medos e os anseios tão típicos da «idade do armário». Na escrita, libertava-os, soltava-se. Um desejo? Que cada palavra sua toque o mundo de quem a lê. Sente que a sua missão é ajudar os outros e acredita no lado bom de todos nós. Quem é ela? É a nossa Cinderella!