A vida [não] é um arco-íris

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Fotografia © Valeria Boltneva | Cartaz © Laura Almeida Azevedo
Fotografia © Valeria Boltneva | Cartaz © Laura Almeida Azevedo

Já fui arco-íris…

Arco-íris de emoções, de sentimentos coloridos, alegres e descontraídos. De uma intensidade fluorescente que a todos tocava e encandeava. Que a todos, os que o viam e compreendiam, levava alegria. Olhos brilhantes de amor e compaixão, de vivacidade e doçura.

Já fui raio de sol que aquecia a alma, o coração, a pele de quem o via e sentia.

Já fui estrela guia, estrela que ilumina, que orienta, que está sempre lá, mesmo quando não se vê. Mão que ampara sem apertar. Ouvidos que ouvem sem criticar.

Já fui lua e luar, refletida num rio, num mar, num amar, num lago ou em um simples charco. Lua que inspira, que serve de refúgio, que alberga amor, testemunha de tantos beijos trocados, de tanto amor acontecido. Luar que faz acontecer, que alumia o caminho, a paixão, que acalenta e faz companhia à solidão.

Já fui tudo e não fui nada.

Um dia, descobri que a vida não é um arco-íris. Descobri em mim, no mundo, na vida, que há uma paleta imensa de cores, berrantes, discretas, claras, mas também sombrias.

Descobri o negro, o negrume da vida, das pessoas, de mim.

E ali fiquei, ali me demorei, ali sofri e ali entendi. Ali, nesse sítio escuro da minha alma.

Onde estava o meu arco-íris? As minhas cores de vida, tão coloridas?

E recordei palavras ditas por várias pessoas, umas amigas e outras quase desconhecidas: tu trazes cor às nossas vidas; tu trazes a alegria; tu levas a quem precisa, e de uma forma tão natural e ingénua, a primavera da vida.

Mas eu já não era eu. Já não via da mesma forma. Já não sentia igual. Magoaram-me. Feriram-me profundamente. Demasiadas nuvens tapavam o sol, a lua e as estrelas e o arco-íris tardava em aparecer.

E ali fiquei, ali me demorei, ali sofri e ali entendi.

Ja fui tudo e agora não sou nada.

O negro que teima em me perseguir. O cinzento que me rodeia. A alma apertada, escurecida, amarrotada, atrofiada. Tudo, em mim, se desmorona. Não sei mais quem sou. Quero a minha paleta de cores, aquelas coloridas que me deixam com um sorriso no rosto e me iluminam a face, a minha e a de quem comigo se cruza. Onde estás tu? Onde estás, arco-íris? Onde estás, primavera? Por onde paras, alegria? Onde estou eu?

Ali fiquei, ali me demorei, ali sofri e ali entendi.

Chorei como nunca havia chorado. Chorei por toda uma vida. Chorei até não conseguir ver. Mas, um dia, e aos poucos, entendi.

Entendi que continuo a ser o que quiser ser, como quiser ser. Independentemente de tudo e de todos. Eu! Aprendi a dizer «eu» em primeiro lugar. Aprendi que a vida tem múltiplas cores, múltiplas pessoas, muitas personalidades, mas que eu sou a pessoa mais importante na minha vida. E que só a mim devo justificações, que só a mim devo a minha felicidade ou infelicidade. Eu sou o que quiser sentir. E quem gostar gosta, quem não gostar não gosta. Eu viverei bem com ambas, porque sou como quero ser e já sei o porquê dos elogios que me teciam e ainda tecem. Tens um brilho natural, uma alegria e doçura no olhar, no falar e no ser que a uns encanta e a outros ofusca. Não te deixes nunca derrubar por aqueles que se sentem ofuscados. Não permitas que tirem esse teu lado bom, ingénuo, altruísta e crente nas pessoas. Agora, finalmente, entendo o que inúmeras pessoas e inúmeras vezes me disseram e cada vez acredito mais em mim e me valorizo!

Afinal, eu não era tudo, mas já era muito. Só que ainda não sabia.

As nuvens dissiparam-se e voltei a ver e a ser arco-íris, sol e luar, abrigo e estrela guia, mas, desta vez, mais conhecedora das cores da vida. Com uma visão alargada, com vivências que me fortaleceram. Mais sapiente do que sou e do que quero ser e de quem me rodeia e por quem me quero rodear. E quero viver! Quero conhecer! Quero ser! Mas contigo e contigo e contigo, olhando para mim e por mim, sim, mas sem nunca esquecer os que me rodeiam. É só dar um pouco mais de enfase ao eu, mas continuar a acreditar no tu e no nós.

Agora, continuo a não ser tudo. Mas, alegre e orgulhosamente, vos digo: já sou tanto!

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SÍLVIA SANTOS, a menina-mulher
Diz, por brincadeira, que é a Sílvia e a Aivlis — o seu nome escrito de trás para a frente. Porquê? Porque é de opostos. Voa e rasteja. Ri e chora. Reflete e descontrai. Uma menina-mulher, das que não sabem que sabem e que pensam que não sabem, mas sabem. Forte, mas resistente. Insegura, mas persistente. Com sede de viver, de sentir, de experimentar coisas novas: tanto pratica artes marciais, como salta em queda livre no meio das palavras. O que a sufoca? A monotonia. Anda constantemente em busca de novos desafios — e foi assim que veio aqui parar.