Saberei voltar a amar-te

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Fotografia © Mayur Gala | Cartaz © Laura Almeida Azevedo
Fotografia © Mayur Gala | Cartaz © Laura Almeida Azevedo

Poderei voltar a amar-te! Sim, depois de te ter apagado do meu coração, poderei voltar a amar-te. Ainda existirá na minha vida espaço para ti.

Quis tirar-te de mim. Expulsar do meu corpo todos os vestígios que restavam da tua passagem pela minha vida. Quis apagar essa passagem, como quem corrige um erro. Pedi ao tempo para levar a tua lembrança. Queria, firmemente, esquecer-te.

Perdi horas do meu viver para limpar tudo o que plantaste no meu coração. Quis arrancar este amor pela raiz, para que a flor secasse.

Confesso-te que, um dia, julguei que te tinha esquecido. Que já não te amava. Julguei que não voltaria a sonhar com as tuas mãos a deslizarem pelos meus ombros, sem pedirem autorização para continuar essa viagem de sedução. Aquelas viagens que ambos sabíamos como iriam acabar. Nós dois perdidos nas teias de uma paixão que nos consumia. E tão felizes que tínhamos sido, de cada vez que viajámos juntos.

Confesso-te que escondi o teu olhar maroto na prateleira da memória. Tentei não me lembrar dos convites malandros que teus olhos me faziam. Tentei esquecer tudo o que os teus olhos me diziam e os caminhos tentadores por onde eles me levavam.

Sim, estavas a começar a ser apenas um fantasma na minha vida. Apenas uma sombra no meu coração. Mas, de repente, quando um dia me preparava para dormir, olhei para o pôr do sol. Aquela porta aberta sobre o paraíso. Aquela enseada onde tudo começou. Perto do sitio onde tudo terminou. No mesmo lugar de sempre, tu chegaste e sorriste. Olhaste-me e não falaste. E o teu silêncio penetrou no que ainda restava de nós.

Abriu-se uma janela. A janela que nunca se fechou, que esteve sempre entreaberta. A esperança, que o meu coração tinha, de que ias voltar. Apenas uma breve brisa e a paixão estava de volta ao meu corpo.

Mas tinha regressado trazendo, com ela, dúvidas. Eu não sei, não sei se há espaço para ti. Não sei como voltar a amar-te, depois de já te ter amado. Como se ama alguém que nunca esquecemos. Como se ama alguém por quem já sofremos.

Sabes, o espaço do meu abraço continua a ser teu. Depois de ti, não encontrei ninguém que tivesse a dimensão daquele sentimento. Mas ali existe, agora, um ponto e vírgula onde sempre existiram reticências. Tu eras futuro. Tu eras eternidade. Voltaste sendo uma incógnita. Uma sombra que renasceu no meio do nevoeiro. E o sentimento ainda não morreu. A paixão, essa, renasceu no meio das cinzas. Depois de ontem, em que já não éramos nada, vejo um futuro na linha do horizonte. O futuro onde tu apareceste, fazendo do passado um presente.

Saberei voltar a amar-te? Ainda terei espaço para ti no meu coração.

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ANGELA CABOZ, a miúda gira
Nasceu em Tavira há 49 anos. Desde a adolescência que é uma apaixonada pela leitura, pela escrita, pelo cinema e pela música. Escreve sobre sentimentos e, nas palavras, reflete a maneira de ver e de sentir o mundo. Em 2014, realizou um sonho: a publicação do seu livro «À procura de um sonho». Desde então, tem participado em várias obras coletivas.