Amar é saber as regras e querer quebrá-las

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Fotografia © Kate Zaidova | Cartaz/Ilustração © Laura Almeida Azevedo
Fotografia © Kate Zaidova | Cartaz/Ilustração © Laura Almeida Azevedo

1:22h. Sexta-feira. A noite de copos, deixei-a lá fora. O mundo, hoje, acontece aqui no meu quarto. O telemóvel acaba de vibrar.

— Mais uma notificação de facebook. – Comento comigo mesma.

Provavelmente, é mais uma foto de alguém que resolveu aderir à última corrente das redes sociais, que se intitula por: «Desafio Aceite». Agarro no telefone com desprezo. Primo uma tecla qualquer para confirmar que não é nada que me vá tirar deste estado — meio embriagado de sono —, em que me encontro. Tinha projetado uma noite serena. E não me tinha enganado. Havia-o sido até à 1:22h. Até ao momento em que, com aquele vibrar, me vieste lembrar – como se fosse possível, algum dia, eu esquecer – que, na ponta oposta do país, era possível estares perto de mim.

Porque, à 1:22h de uma sexta-feira, é sempre uma boa hora para darmos sentido à palavra amar. Até porque amar (ainda) não tem hora marcada. Amar é assim. É feito disto. É saber as regras e querer quebrá-las. É rasgar a madrugada e desconcertar a noite – que se quer serena. É trocar os planos e desorganizar os pensamentos. É passar de quase sono para alerta permanente. É desejar estar a quilómetros daqui, deste quarto. É querer teletransportarmo-nos para a ponta oposta do país. É querer voltar a dormir e já não conseguir.

E, à 1:22h entraste pelo quarto dentro, aninhaste-te a meu lado e sussurraste assim:

— Quero estar naquela piscina contigo. Quando vais embora?

— No Domingo. Não neste. No próximo. – Disse-te, ainda meia estremunhada.

— Anda para a praia. Está a haver uma festa na praia. Anda.

— Se ia. Ia mesmo. Estou-te a escrever (mais uma vez). – Confidencio-te.

— Amo. O último (texto) que te li… Estava na praia a comer um pêssego com o cão ao meu lado. Sabes? Agora, queria-te ali, naquelas espreguiçadeiras, junto ao chapéu de sol, de palha. Fazíamos amor a noite toda.

— Sem dúvida. – Disse-te eu, enquanto fechava os olhos, imaginando-me aí, nesse cenário que acabaras de me descrever.

— Assim, calminhos. Para poder olhar-te nos olhos.

— Sem haver palavras. Porque não são precisas. Só voltar a sentir-te. Só mais uma vez! – Completei-te eu.

— Olha, temos de ter sempre uns dias de férias, aqui, no Algarve. – Pediste-me tu em jeito de compromisso para o futuro. O nosso futuro. Aquele que talvez nunca chegue. Mas, se um dia chegar, prometo-te que tiraremos, sempre, uns dias de férias no Algarve. E que faremos amor nas espreguiçadeiras, numa praia qualquer, a noite toda.

— Vamo-nos ter sempre! Seja onde for. Mesmo que seja só assim, à distância. Onde tu fores feliz, eu também serei. Porque é o teu sorriso que me dá vida. Não no corpo. Na alma (…).

E, à 1:22h, acabei também por aceitar o desafio. Não o das redes sociais. Mas, sim, o desafio para uma vida. O desafio que vai além da vida. Aquele que une duas pessoas sem estarem juntas. Aquele que supera distâncias físicas. Aquele que, de tempos a tempos, precisa de se alimentar de amor mútuo. Aquele que nos desconcerta o pensamento, mas que nos alinha a alma. Aquele que faz de uma noite serena um reboliço, e aquele que nos faz registar tudo isto em palavras, às 4:11h da madrugada. Serão só palavras. Porque, na alma, tudo isto já está perpetuado. Desde sempre.

— És a minha herança! – Repetes-me, pela primeira vez, hoje!

— Pertenço-te para sempre. Sabes disso, não sabes?

— E eu a ti! – Dizes, em jeito de despedida.

— Agora, íamos para a cama. – Dizes-me, sorrindo.

E, então, apago a luz e aninho-me nos teus braços, nesta noite, que tinha a certeza de que ia acabar serena.

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JÚLIA DOMINGUES, a JUX
Tem 38 anos. É solteira e igual a si mesma. Licenciou-se em Direito, sendo Jurista, mas a mais sábia aprendizagem foi aquela que a camaradagem desses tempos trouxe — e que dura, na maioria, até hoje. Tem um refúgio que gosta de pensar que é secreto: Braga, Gerês, a terra dos seus pais. Desde os 25 anos que diz: «Qualquer dia, piro-me de vez para o Norte. Quando for grande.» Mas nunca se pira, apesar de já ser grande. Adora tudo o que seja trabalhos manuais e o desenho é, sim, a sua verdadeira paixão. Tem fobia a andar de avião. E acredita no amor, embora não em coisas especiais. Afinal, não é preciso que ele venha de cavalo branco.