Pelos caminhos de Santiago

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Fotografia © Carina Maurício | Cartaz © Laura Almeida Azevedo
Fotografia © Carina Maurício | Cartaz © Laura Almeida Azevedo

Dia 0 – Antes da partida

Uma amiga questionou-me porque eu, sendo budista, queria fazer o caminho de Santiago?

Há dois meses atrás, depois de falar com um amigo, que fizera o caminho no ano passado, e depois de ver um filme sobre o tema, determinei ir este ano. Ia ter dias de férias e era a oportunidade de fazer alguma coisa diferente. Diferente de estar na praia. Sair da minha zona de conforto e testar os meus limites físicos.

Escolhi o caminho Sanabrés, a começar em Ourense, porque um amigo dissera-me que era muito bonito. Objetivo: fazer 108,7 Km! Uma nota: o mínimo para ser considerado peregrinação são 100 Km.

Comecei a ler sobre o tema. Li que, mais do que um caminho associado à peregrinação católica, é um caminho espiritual. Que existia ainda antes do catolicismo. Li também que, mesmo que inicialmente não tenhas um objetivo para fazer o caminho, no percurso irás certamente encontrar razões para teres embarcado nesta aventura.

Inicialmente não arranjei companhia para o fazer, por isso decidi ir sozinha. Li que quem começa o caminho sozinho não o termina sozinho. Mais tarde percebi o que queria isto dizer.

Depois, juntou-se um amigo espanhol, o Ricardo, que reuniu mais três amigas suas, espanholas, a Antía, a Paula e a Alex, que eu não conhecia. E estava o grupo reunido.

Dia 1 – Ourense a Cea (22,3 Km)

Abandonámos a cidade de Ourense de manhã cedo. Havia duas possibilidades de caminho. Decidimos ir por aquele onde encontraríamos as marcações. Todo o caminho de Santiago está bem marcado com conchas e setas amarelas no chão, nas paredes, nos postes. É só estar atento. Nas cidades, como são muito grandes, encontrar as indicações pode representar um verdadeiro desafio. Lá conseguimos tomar uma das direções. Azar o nosso, acabámos por escolher o mais difícil. Percebemos depois: 4 km de subida numa encosta acentuada, pouco depois de sairmos da cidade. Foi um verdadeiro desafio! Surgiram-me aqui logo dois pensamentos: se o caminho fosse todo assim, não iria aguentar; e por que raio tinha decidido fazer o caminho?

Foi depois de subir esta encosta que encontrámos os madrilenhos, o Mário, o Javier e o Ramón, pela primeira vez. Parte desta etapa foi realizada com eles, entre agradáveis conversas. Pessoas que nos iriam acompanhar em toda esta aventura.

A meio desta etapa fizemos uma pausa na casa de um senhor, o César, que recebe os peregrinos com vinho ou café. Uma pequena divisão a fazer de cozinha, com mesas e bancos, repleta de fotografias, postais e lembranças dos peregrinos que por ali passam. Dizia o senhor que iria fazer uma exposição, com todas as fotografias que tinha com os peregrinos. Claro que também tirámos uma fotografia para a dita exposição.

Segundo a meteorologia, este era o dia mais quente, 39ºC de máxima. Mas grande parte do caminho foi entre matas e boas sombras. De vez em quando, encontrávamos fontes, onde nos refrescávamos.

Chegámos ao albergue (Albergue de Peregrinos de Cea), recuperado de uma casa antiga. Tomámos banho, lavámos a roupa e fomos comer polvo, típico da Galiza. À tarde, os meus companheiros de aventura foram dormir la siesta. Ou não fossem eles espanhóis. Eu dormi pouco na noite anterior, mas não sou capaz de dormir à tarde. Foi assim que conheci o Diego. Passámos a tarde a conversar. Muito simpático. Iria fazer o mesmo caminho que nós, mas queria fazê-lo em quatro dias. Assim, pouco tempo depois, seguiu caminho e nunca mais o voltei a ver. Conseguiu chegar em três dias e enviou-me uma fotografia com um ar de felicidade, em frente à catedral.

À noite, além do calor que se fazia sentir no quarto, este cheirava muito mal, por causa dos peregrinos que viajavam a cavalo. Explicámos a situação ao hospitaleiro, o senhor que cuida do albergue, com dificuldade, porque usava um aparelho auditivo. E pedimos se poderíamos colocar os colchões no terraço. Assim, dormimos sob as estrelas e acordámos com o galo a cantar.

Dia 2 – Cea a Castro Dozón (18,9 Km)

Saímos atrasados, porque o Ricardo teve que voltar ao albergue porque se esqueceu de algo. Como queríamos visitar o Mosteiro de Oseira às 10h, que ficava mais ou menos a meio da etapa, tivemos que ir com o passo acelerado. Chegámos mesmo na hora.

Além dos madrilenhos, estavam também nessa mesma visita um casal. Ela chama-se Teresa e ele nunca soube o nome, e o Fernando. Pessoas que iriam marcar também o nosso caminho e com quem eu viria a falar mais tarde.

Aqui, quando parei, e porque viéramos muito rápido, os pés começaram-me a doer bastante. Fizemos a visita guiada, o mosteiro é muito bonito, e uma pausa para comer antes de continuarmos o caminho.

Seguiram-se sucessivas subidas e descidas entre matas e pequenas aldeias, com os espigueiros a salpicar as paisagens, típicos na Galiza.

Os últimos 2 Km em estrada de alcatrão, debaixo do sol intenso das 13h, foram muito difíceis para mim. Os pés doíam-me horrores. Estava um calor insuportável e o peso da mochila começava a incomodar. Quando finalmente chegamos ao albergue, não conseguia pousar os pés no chão. Só me apetecia chorar. Descalcei-me e estava cheia de bolhas nos pés. Os madrilenhos disseram-me: «niña, senta-te aí que nós tratamos de ti». E assim foi. Aliviou bastante as dores, embora persistissem no dia a seguir.

Foi neste dia à noite, no parque exterior do albergue (Albergue de Peregrinos de Castro Dozón), onde estávamos todos em conversa, que conversei pela primeira vez com o Fernando. Viajava sozinho.

As pessoas que encontramos, desde o início na caminhada, são as mesmas com quem nos vamos cruzando. Porque vamos fazendo as mesmas etapas e dormimos nos mesmos albergues. Chegámos a alterar os Km, destinados para determinado dia, para fazer o mesmo percurso que os demais iriam fazer. Eram pessoas mais experientes nos caminhos de Santiago. Assim, aceitámos os conselhos que nos deram.

Dia 3 – Castro Dozón a Silleda (27,5 Km)

Saímos cedo. A etapa deste dia foi praticamente debaixo de chuva e trovoada. Só nos últimos 4 Km abriu o sol.

Todo o percurso foi realizado com muitas dores musculares e nos pés, mas até aqui foi o mais fácil e bonito, entre caminhos por bosques com grandes árvores, muros de pedras cheios de musgo, rios e calçadas de pedra. Deste dia recordo uma ponte romana muito alta sobre um rio lindíssimo, que depois continuava em calçada.

Fiz boa parte do percurso com o Fernando, muito simpático e até tirámos uma selfie para recordação.

Ficámos esta noite no albergue de Santa Olaia. Nós, o Fernando e um outro peregrino.

Embora os madrilenhos não ficassem esta noite no albergue connosco, Ramón veio visitar-nos e contar-nos mais coisas. Contou que o ano de Xacobeo se celebra quando o dia do Apóstolo Santiago (25 de Julho) é ao domingo. Este ano não era suposto ser, mas a igreja assim quis. Por isso, a entrada na catedral poderia ser realizada pela porta Santa, que estaria aberta. Contou ainda sobre todo o ritual que deveria ser realizado à chegada a Santiago. Tocar na última pedra do caminho, subir as escadas, ver a fachada deitada no chão da praça do Obradeiro. Observar toda a história da bíblia no pórtico da Glória. Tocar na árvore de Jesé, que representa sabedoria e que sustenta a escultura de Santiago, recebendo os peregrinos. Depois colocar um braço na boca do leão. Se tens medo, não és um verdadeiro peregrino, contou Ramón. A seguir dar duas cabeçadas na cabeça do mestre Matheu, autor do pórtico, símbolo de conhecimento. Por fim, entrar para abraçar Santiago e descer ao seu túmulo. Ah, e que não nos esquecêssemos de ir buscar a Compostela, certificado em latim do caminho de Santiago.

Depois a Paula fez de enfermeira e tratou dos meus pés, da Alex e do Ricardo.

Jantámos com o Fernando. Ele tinha gelado de cheesecake (a minha sobremesa preferida) da Haagen-Dazs. Animou-me a noite.

Este albergue com vários pisos, vários corredores e quartos, tudo branco, mais parecia um hospital. Praticamente vazio, com quadros de santos e pessoas religiosas nas paredes. Este ambiente revelou-se assustador com o barulho e as luzes dos relâmpagos durante toda a noite.

Fotografias © Carina Maurício
Fotografias © Carina Maurício

Dia 4 – Silleda a Ponte Ulla (19,7 Km)

Saímos cedo. Já não chovia, mas toda a etapa foi sob nevoeiro cerrado, que até foi agradável para caminhar. Passámos por muitas quintas, animais a pastar, campos agrícolas, plantações de milho. Encontram-se também muitas casas antigas restauradas, com as suas paredes de pedra originais.

Todo o percurso foi a coxear. Tinha uma dor no tornozelo e o pé inchado, que me doía cada vez que o pousava no chão. Devo tê-lo torcido e nem me dei conta. Os outros peregrinos incentivavam-me com a frase: «No pain, no glory!»

O acontecimento insólito deste dia foi, devido à trovoada que se fez sentir de noite, cair um enorme tronco mesmo atrás de nós. Foi uma sorte não nos ter atingido.

Durante este dia, voltámos a cruzar-nos várias vezes com as mesmas pessoas que tínhamos visto no caminho e os nossos amigos madrilenhos. A nós dava-nos graça, porque, sempre que os encontrávamos, estavam numa esplanada, de algum bar, a comer e a beber.

É especial fazer este caminho porque conhecemos, de facto, muitas pessoas. Fazemos alguns Km ao lado de alguém e trocamos agradáveis conversas e, mais à frente, já vamos em grupo. E, depois, talvez caminhemos algum tempo sozinhos, num momento de introspeção.

É por isso que, mesmo que se comece o caminho sozinho, não se termina sozinho. Muitos são aqueles que o começaram sozinhos. Mas, nesta altura do caminho, já conhecem muitos peregrinos, com quem vão partilhando experiências.

A mim, o que mais me comoveu foi a forma como os peregrinos se preocupam e cuidam uns dos outros. Desde o início, todos me perguntavam como eu estava e como me sentia.

Ficámos no albergue o Cruceiro da Ulla, onde falei, pela primeira vez, mais tempo com o casal. Contaram-me que se conheceram num dos muitos caminhos que fizeram sozinhos. E, depois, juntos já fizeram outros quantos. Fazem-no todos os anos. A falar com eles emocionei-me. Estava a contar-lhes que não tinha um motivo para fazer o caminho e que, pelas dores, eventualmente não queria repetir. A Teresa disse-me claramente que iria querer repetir. Que, quando chegasse a Santiago, iria sabê-lo. Ela tinha razão.

Dia 5 –Ponte Ulla a Santiago (20,3 Km)

Fizemos parte da última etapa ao lado de um senhor já de certa idade, canadense, que passara todo o verão a fazer o caminho. Falava inglês. Por isso, limitei-me mais a ouvir, já que o meu inglês é precário.

Conhecemos também Alessandro e Luís, pai e filho, que nos acompanharam na metade final desta etapa. Alessandro ofereceu-nos uma pequena mão em borracha, representativa da amizade entre peregrinos. Tirámos fotografias e partilhámos histórias.

A chegada foi emocionante, como era de esperar, depois de todo o sofrimento, mas principalmente por ter sido partilhada com o grupo que me acompanhou e com as pessoas que me foram marcando no caminho. Foi lindo poder registar momentos fotográficos com todas estas pessoas. Só não voltei a ver o Fernando, com muita pena minha.

Observámos a catedral deitados no chão. Mas os demais rituais não foram possíveis de concretizar, pois o pórtico da Glória estava em restauro.

Não sou católica, mas fui abraçar Santiago. Afinal, mais do que qualquer circunstância religiosa ou espiritual, para mim este caminho foi amizade, cooperação, conhecimento. Conhecimento de mim e dos outros.  E, se Santiago foi o responsável por isso, então, sim, merece um abraço.

A vitória é a própria viagem. A vitória é aquilo que se sente no coração, acima de qualquer dor. A vitória é ultrapassar aquilo que pensamos ter como limites. Mas, acima de tudo, a vitória é aquilo que senti na amizade partilhada à chegada.

Obrigada, Ricardo, Paula, Antía, Alex, Diego, Javier, Jamón, Mário, Teresa e o seu companheiro, Fernando, Alessandro, Luís e a todos os outros que não cheguei a saber o nome. E buen camino!

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CARINA MAURÍCIO, a fotógrafa
É budista e conservadora-restauradora. É de riso e choro fáceis. Tem tanto de sensível, quanto de corajosa e lutadora. Adora fotografar, jogar ténis e viajar. Viciada em comida, é fã de comida italiana. Gosta de dormir, de café, de chocolate. Dançar? Pode ser a noite toda. Mas também gosta de ficar na ronha, em casa, entre filmes e pipocas. Adora o som da chuva a cair no inverno e o som do mar em dias de verão. Campos floridos enchem-lhe o olhar, assim como as cores das folhas do outono. Apaixona-se facilmente e é uma apaixonada pela vida. Uma geminiana pura.