
Chego ao lugar para me sentar no avião. À minha espera está um casal. Tão simpáticos. «Hello», dizem eles com voz afável e doce, com os olhos risonhos. São americanos. O meu lugar era o da janela.
Ele dirige-se a mim: «Deve ser o 37F.» Respondi: «Sou, sim! Mas, se quiser ir no meu lugar, eu não me importo.» E ele sorriu, surpreendido: «Sério?» Insisti: «Claro que sim! Por favor!»
Faço esta viagem tantas vezes, que não me importava de não ir à janela. Tinha a sensação de que seria a primeira vez que eles iam a Portugal. Não me enganei.
Normalmente, nestas viagens de avião, existem pessoas que são mais solitárias, que gostam de estar na sua, com os seus phones, com o seu livro. Outras adormecem. Outras gostam de meter um pouco de conversa. Sei lá. Faz o tempo passar mais rápido.
No meio da viagem, perguntam-me se Lisboa é o meu destino final. Respondo que sim. Pergunto: «É a primeira vez que vão a Portugal?» Respondem em uníssono que sim, é. «Estamos tão entusiasmados!» Ainda bem que os deixei ir no lugar da janela, vão ser brindados com bonita vista ao aterrarmos sobre Lisboa. Pergunto: «Para onde vão?» Respondem-me qualquer coisa do género: «Famo.» Muito intrigada respondo: «Desculpe. Não percebi.» Eles tiram de um pequeno livro, com o roteiro dos sítios que iam visitar. Mostram-me o que está escrito: Fátima. Eu repondo: «Ahhhhh, Fátima!» Sorri. Os olhos dela sorriram. Ela emocionou-se. Não sei porquê, eu também. Não precisou de dizer nada, mas eles iam lá com propósito, que eu não tive coragem de perguntar. Mas percebi. Porque seus olhos falaram.
No meio da viagem, ela levanta-se para dar uma caminhada pelo corredor do avião. O marido diz-me: «Ela tem que caminhar. Precisa.» Os olhos dele não saem dos dela. Ele continua: «Está a ver aquelas pisaduras que ela tem no braço?» Repondo «sim». Continua: «Começaram a aparecer desde janeiro. Agora ela está melhor. Todos os dias, tenho que lhe dar duas injeções. Mas ela está bem melhor agora.» Eu fiquei sem muito que dizer. Disse «vai correr tudo bem. Ainda bem que ela está a melhorar.» Ele: «Sim! Ela é tudo para mim.»
Ela vem, senta-se. Eles riem-se ao meu lado. Ela encosta-se ao ombro dele. Tão bom ouvir estas risadas. Namoram, como dois adolescentes.
Ao descermos, eles dão as mãos, entrelaçadas. Ficam a olhar os dois para a janela. Lisboa está a chegar. O céu está limpo. O sol brilha lá fora, mas mais dentro deles. E que brilhe muito, sempre e para sempre.




