Amor doentio

Cartaz © Laura Almeida Azevedo
Cartaz © Laura Almeida Azevedo

Olhou-a fixamente, enquanto ela se dirigia para a sala das fotocópias. Aquele vestido em tons de rosa assentava-lhe muito bem. Todas as suas curvas ficavam bem delineadas. Sabia exatamente quando ela o comprara, em que loja e em que outras ocasiões o usara. Pegou no telemóvel e viu as fotos. Sabia muito bem que tinha fotos dela com aquele vestido. Precisava de as rever. Sorriu. Estava divinal, como sempre! Ela era tudo com que sempre sonhara e ia ser sua! Tinha que ser! Pegou na flor branca que trouxera escondida e, sem que ninguém se apercebesse, colocou-a na sua secretária. Ela adorava flores. Sabia bem que sim! Sabia que ela ia cheirá-la. Olharia em redor querendo descobrir quem a deixara. Depois, iria colocá-la no teclado e ficaria ali até murchar, ser deitada ao lixo e receber outra!

Vanda trazia nos braços o que lhe parecia uma tonelada de fotocópias. Viu a flor em cima da secretária e olhou em redor. Ao início achou piada à brincadeira e perguntou pelo escritório quem tinha sido. Ninguém se acusou. Mas agora, que recebia telefonemas a meio da noite onde nada era dito e também recebia mensagens anónimas a elogiar o que tinha feito durante o dia e a perguntar se gostara da flor, toda a piada tinha sido perdida!

«Ana, por acaso, viste quem deixou aqui a flor?» A colega olhou-a admirada. Estaria a falar de quê? «Não! Não vi ninguém a deixar aí nada. Mas não é a primeira vez que recebes uma, pois não? De certeza que é algum admirador secreto!» Sorriu. Vanda olhou em redor. Trabalhavam ali cerca de 80 pessoas. Podia ser qualquer um! Havia também pessoal externo que entrava e saía constantemente. Ficara assustada quando Ana alegara ‘admirador secreto’. Mas para quê alarmar-se? Era só uma flor. Desta vez, não a cheirou. Pousou-a no teclado. Respirou fundo. Precisava de mudar de assunto.

«Já sabes onde vai ser a festa de Natal deste ano?» Ana sorriu. Se havia novidade a circular pelo escritório, ela sabia. «Claro que sei! Parece que este ano abriram os cordões à bolsa! Será num hotel no centro da cidade. Comida e bebida à descrição e…» Esbugalhou os olhos. «Para loucura total haverá uma banda de música portuguesa ao vivo!» Esboçou um sorriso de orelha a orelha. Vanda sorriu. Era, sem dúvida alguma, uma excelente notícia. «Isso é muito bom! Já sabes o dia?» «O que é que achas?» Sorriu, enquanto olhava a colega e brincava com uma caneta. «Vá lá, diz, então! Acho que vou comprar um vestido novo para essa altura!» «É no dia 19. Temos que estar lá por volta das oito da noite. Pelo que sei, temos que vir trabalhar e depois partilhamos boleia até lá!»
«O ideal seria partilhar boleia com quem não bebesse! Assim podíamos estar muito à vontade para beber até cair!» Piscou o olho à colega e sorriu. «Olha, não tinha pensado muito nisso. Mas é uma excelente ideia!»

Olhou para Vanda novamente. Ela era sempre tão simpática com todos. E aquele sorriso era divinal. Amava-a e Vanda tinha que ser sua. Sabia que, devido à sua timidez, talvez nunca se declarasse convenientemente, mas Vanda era perspicaz. Já tinham falado imensas vezes sobre relações. Tinha a certeza de que ela também nutria algum tipo de sentimento por si. Quais tinham sido as palavras exatas dela? ‘O amor nasce de uma grande amizade!’ Tinham uma amizade grande, não tinham? Logo, dali nasceria um grande amor! Vanda sentia-se observada e a sensação era horrível! Sabia que estava sozinha no escritório. Infelizmente, tinha-se esquecido ali do seu telemóvel e tivera que voltar.

Assustou-se com o que lhe pareceu passos. Olhou em redor. O coração batia descontrolado. «Quem está aí?» Novamente aquele barulho! Olhou em redor. De um dos gabinetes, uma luz ténue parecia chamar por si. Tentou ficar mais atenta para tentar perceber se não seria um ruído da noite. «Quem está aí?» Perguntou agora mais assustada. Levou a mão ao peito, quando viu a sombra a aparecer do corredor. Sorriu. Que parva por pensar noutra coisa.

«Assustaste-me!» Pegou no telemóvel que estava na sua secretária. Viu ali outra flor. Tentou não se perturbar. Olhou para o telemóvel. Três mensagens do mesmo número.

«Não era minha intenção fazê-lo! Desculpa.» Olhou para Vanda. Como era bonita. E assim assustada, de bochechas rosadas e de peito a arfar ainda, era mais bonita. «Não vais cheirar a flor?»

Vanda olhou fixamente para quem estava na sua frente. «Como é que sa…» Esbugalhou os olhos, quando Maria se aproximou de si com um lenço na mão, esfregando-o no seu nariz.

Maria acariciou-lhe o rosto. Como a amava. E agora estavam ambas livres. «Oh, meu amor! Desculpa! Desculpa pelo que te faço. Mas amo-te há tanto tempo! Agora vamos ser felizes. Sei que também me amas! Sei que sim! Tu mesmo disseste que os homens são uma porcaria! E gostas tantos das flores que te envio! E somos amigas! Da amizade nasce o amor! O amor verdadeiro. Vais ser minha! Só minha!»

Vanda gemia baixinho. Não sabia o que continha o lenço, mas sentia-se sonolenta e sem forças. «Maria…» Gemeu num sussurro.

«Chsst! Eu sei, meu amor, eu sei! Queres tanto isto como eu. Vamos ser tão felizes! Aluguei uma casa só para nós! Ficarás na cave. Sei que ao início vais estranhar, mas não posso arriscar que te roubem de mim! Nada disso! Terás flores todos os dias! Flores lindas! Não tão lindas como tu!»

«Não podes…» Mais um gemido.

«Oh, minha querida! Anda. Vamos.» E ajudou Vanda a levantar-se arrastando-a pelos corredores.

Vanda acordou assustada. Sentia que tinha tido um pesadelo horrível. Tinha uma dor de cabeça que a agoniava. Olhou em redor. Nem se lembrava muito bem de onde estava. Assustou-se quando se apercebeu de que estava presa por um tornozelo. Ambientou-se à escuridão e olhou em redor. A divisão era ampla. Não tinha janelas. Reconheceu no parco mobiliário algumas das suas coisas.

«Não!» Gritou desesperada. Não tinha sido um pesadelo. Era real. Olhou para um pequena mesa no canto da divisão. Havia ali centenas de fotografias suas. Muitas nem sabia onde tinham sido tiradas. Havia um pequeno cinzeiro com cabelos. Nem precisava de adivinhar que eram seus. O que mais a chocou foi as fotos de ex namorados seus completamente riscadas e com o símbolo da morte por cima delas!

Maria entrou na divisão com um tabuleiro com uma sopa. «Deves estar exausta! Dormiste três dias! Mas estás com bom aspeto! Vamos ser tão felizes, meu amor!» E sorriu maliciosamente.

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Ela é ativa q.b. — e há quem ache que o é até demais. É bem disposta por natureza e o sorriso é a sua imagem de marca. Por isso, ama sorrir e ama quem sabe sorrir! Adora ler — e há quem ache que lê demais, mas nunca se lê demais, pois não? E adoraaaaaaaaaaa escrever! Não perde um desafio e, por isso mesmo, veio parar aqui. E ainda bem.