Morrer…. Quis tanto e nunca consegui!

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Fotografia © Fré Sonneveld | Cartaz © Laura Almeida Azevedo
Fotografia © Fré Sonneveld | Cartaz © Laura Almeida Azevedo

O vermelho no céu vai-se esbatendo. Sempre adorei o pôr do sol. Dá um ar de magnitude ao horizonte. E se o horizonte é sublime!

Os braços começam a ficar sem força. Os dias vão passando. Começam a faltar argumentos. As palavras já não fazem sentido. A mentira sai tão naturalmente… «Já não gosto de ti.»

— Olá! Podes dizer olá. Eu não mordo.

Conheci logo os teus dedos. A mão tinha surgido do nada.

— Olá — a voz saiu-me assim entaramelada. Ficou apenas aquele esgar, singelo.

Não resisti ao toque. Mão doce, suave. Acedi, a medo, mas aquele toque fez-me respirar fundo.

— Eu não mordo. Prometo portar-me bem, sim?

Esta foi a última vez que falámos e o brilho seco e triste dos olhos dela saltou à vista. Continuava linda. O seu andar sexy e poderoso continuava a fazer-me lembrar o primeiro dia que a vi. Parecia que nada mais existia à minha volta.

— Ainda não entendo muito bem o que se passou comigo. De repente, tudo desabou. Por muito que tente, não consigo mesmo — comentei.

— Tenho pena. — Dizias-me com olhar terno, mas com uma vontade enorme de me esganar. — Tenho mesmo pena que assim seja. Respeito e aceito, mas tenho tanta pena, que não te consigas libertar desse sentimento.

— Imagino que sintas isso, mas não consigo, e não nego que me incomoda.

— A vida é tão curta e tem tantas coisas boas e tantos sentimentos bons para aproveitar. E ninguém tem culpa do que sente ou do que não sente. Às vezes, aquilo que pensamos que sentimos, afinal de contas, era ilusão da nossa cabeça. Outras é ainda algo verdadeiro, mas há que deixar ver e deixar sentir isso até ao fundo. E para isso é preciso viver… Vive!

— Mas quem te disse que não vivo? — perguntei. — Eu vivo. Escondido. Cá vou estando no meu canto. Refugiado do mundo. Refugiado dos sonhos, do amor, de tudo.

— Deita fora essa merda desse orgulho! E não deixes nada por dizer, nada por sentir. Isso não é viver. Isso é sobreviver, o que no teu caso é o mesmo que morrer antes do tempo.

Lentamente, as lágrimas vão escorrendo, ficando apenas o meu desabafo:

— Morrer…. Quis tanto e nunca consegui!

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NUNO CORREIA, o desportista
Tem 36 anos. Nasceu em Coimbra. É um apaixonado pelo desporto e pelo ar livre. Descobriu o gosto pela escrita no dia em que deixou de acreditar no amor... Ou, aqui entre nós, talvez não.