Uma centelha de esperança

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Ilustração/Cartaz © Laura Almeida Azevedo
Ilustração/Cartaz © Laura Almeida Azevedo

A criança brincava nos degraus do seu prédio. O carrinho corria de um lado para o outro e, dotado de uma mecânica futurista, saltava para o degrau seguinte, aterrando sobre os seus pneus e continuava a sua corrida como se nada fosse.

— O teu carro veio do futuro? – perguntou-lhe um homem que se sentara num dos degraus.

O menino olhou para o senhor, surpreendido por estarem a falar consigo. O homem vestia uma farda que não reconheceu. O que era estranho, pois pensava que já as conhecia a todas de tanto as ver por aí. Tinha uma fisionomia robusta. Seria capaz de dar cabo de uns quantos de uma vez, pensou. Nos dias que corria dava jeito. Sorriu.

— Sim. Só podia! Os carros ainda não voam aqui. – Respondeu a criança indignada por aquele adulto não saber disso.

— Porque não brincas com aqueles meninos que estão ali? Não os conheces? – O homem apontava para um grupo de crianças que brincavam na berma da estrada, onde antes houvera um passeio.

Haviam construído uma muralha com pedaços de escombros que jaziam ali perto. Pegavam em pedras e atiravam de um lado para outro. Cada um tinha um boneco ou algo que se assemelhava a isso. Escondiam-se junto à muralha quando um lado atirava pedrinhas e depois o jogo invertia. De vez em quando, um boneco era atingido. Uma ambulância imaginária chegava imediatamente e levava o ferido. Os bonecos desempenhavam vários papéis. Um dos soldados de há pouco era, agora, o médico que assistia o ferido.

— Conheço, mas hoje não quero brincar à guerra. – Justificou-se assim a criança pelo facto de não estar junto deles.

— O boneco daquele teu amigo já passou um mau bocado. Mas é um grande guerreiro, pois voltou ao campo de batalha.  O homem referia-se à criança mais velha do grupo. Teria uns oito anos. Brincava com uma figura de acção de um filme de há alguns anos atrás. Era um super-herói de faz de conta. Já não tinha uma perna.

— Ele é que lhe arrancou a perna. Queria que ficasse igual ao pai. – Informou a criança.

O pai do menino, de que falavam, perdera uma perna quando o salvara de ficar esmagado pelo teto que desmoronou, sobre as suas cabeças, após um ataque aéreo. A perna havia sido apanhada por uma das vigas que o seguravam. O pai, esse sim, era um herói de verdade para o seu filho.

— Quem é que achas que está a ganhar a guerra? – questionou o homem ao menino sentado ao seu lado, interrompendo assim o silêncio que, entretanto, se havia instalado.

O miúdo encolheu os ombros e olhou para o chão. Sabia que não era sobre a guerra, ficcionada pelos seus amigos, que o homem perguntava.

— Onde vives? –  o homem esperava que não fosse no prédio ao qual pertenciam aqueles degraus. Já pouco restava dele.

— Lá ao fundo. – Disse o menino, indicando um prédio numa esquina. O homem suspirou. Parecia intacto. Se teria as mínimas condições, já tinha as suas dúvidas.

O homem levantou-se. 

— Anda, eu levo-te até lá. – Esticou a mão para a criança.

De repente, ouve-se um estrondo. Os meninos olharam em volta, mas não pareceram muito afetados. Continuaram o que estavam a fazer. O homem pareceu surpreendido.

— Não se assuste. Foi longe daqui. – Aquietou-lhe a criança que, entretanto, havia-lhe dado a mão. Apesar da sua tenra idade, ele já sabia como soavam as bombas quando caíam perto. E não era o caso desta.

Caminharam juntos, o forte homem e o frágil menino, pela rua abaixo até a casa deste. Aí, deixou-o junto à porta.

— A guerra vai acabar. Tenho a certeza disso. – Disse-lhe o homem com toda a confiança. – Lá, de onde eu venho, já acabou. – A criança arregalou os olhos.

Foram interrompidos por alguém que chamava pelo menino de uma das janelas. Este virou-se de costas para responder, mas, quando voltou a olhar em frente, o senhor já lá não estava.

Como é que ele sabia? Será que aquele homem tinha vindo do futuro, como o seu carro? Seria ele um dos homens que os ajudaria a acabar com a guerra?  Seria por isso que não lhe reconhecera a farda?

Os olhos do menino brilharam. Reacendia-se uma centelha de esperança. Como seria o seu mundo sem guerra, imaginou. Afinal, aquela criança não tinha memória de outra realidade que não aquela. Teria seis anos no máximo.

O menino entrou a correr no prédio.

— Mãe, mãe, a guerra vai acabar! – gritava o miúdo pelas escadas acima.

A questão que ficava no ar era apenas uma. De que ano, no futuro, viera aquele homem?

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ANA PEREIRA, a inquieta
Nasceu numa noite estival, mas tem alma outonal. Convive com os números, mas encontra refúgio nas palavras. Aparenta serenidade, mas governa-a uma mente deveras inquieta. Se lhe perguntarem, é assim que se define a si própria. Aliás, estas foram palavras dela.