E quando tudo não chega?

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Ilustração/Cartaz © Laura Almeida Azevedo
Ilustração/Cartaz © Laura Almeida Azevedo

Decidi ir jantar contigo. Após ter esgotado todas as desculpas daquela semana, não havia como não aceitar o teu convite. Os dez primeiros minutos de um primeiro encontro são, sempre, uma mistura entre o não saberes o que fazer às mãos e a tentativa — na maior parte das vezes, frustrada — de falares, sem parecer que padeces de uma paralisia facial, com repercussões ao nível da fala. Os nossos dez primeiros minutos não foram diferentes. Não me recordo o que disse, que expressões utilizei e tão-pouco me recordo se as mãos fizeram parte do meu corpo.

— Para beber, pode ser uma cerveja preta, por favor!

Sabia que, desta forma, o embaraço inicial de um primeiro encontro ia ser, eficazmente, combatido. Já há algum tempo que tinha feito um compromisso comigo. Ia ser igual a mim mesma. Sem filtros. Mesmo num primeiro encontro. Portanto, pedir uma cerveja preta fazia todo o sentido. E, a partir desse momento, as cervejas que iam acompanhando o jantar foram pedidas aos pares. Foi com agrado que constatei que a cerveja era também o que acompanhava o teu jantar.

Os primeiros dez minutos foram superados com sucesso, enquanto a conversa fluía, entre sorrisos — ainda meio escondidos —, mas que se iam fazendo notar. No que reparaste tu, naquele primeiro encontro? Reparaste que desvio, muitas vezes, o olhar quando me sinto intimidada? Reparaste como tento comer, pausadamente, para evitar, a todo o custo, que me suje? Reparaste como me atrapalho nas respostas, quando me fazes um elogio ou dizes alguma coisa mais atrevida? De ti retive que eras, suficientemente, polido. Tinhas as maneiras que a maioria das mulheres apreciam.

Depois daquele jantar, decidi que me ia demorar em ti. Decidi que queria ficar ali, a apreciar-te o traço. Decidi que ia conhecer o sabor do teu beijo. Mas, antes de me perder nos teus lábios, proporcionámo-nos mais um jantar, dois cafés e uma saída até às 7h da manhã. Esgotado o protocolo que confirma que: «Depois de três encontros, já pode existir o primeiro beijo», chegara a hora de reclamar, então, o beijo que estava em atraso há, pelo menos, dois encontros. Caramba! E que beijo, homem! Tinha o meu sabor favorito, a intensidade que é exigida num beijo e a sedução que antevia todo um cenário idílico.

Decidi que queria repetir os teus beijos. Decidi que seriam beijos para se fechar os olhos e viajar. Decidi que valia a pena demorar-me em ti. E, entre beijos e sorrisos, chegou a primeira mensagem a pedir-me para ir ter contigo, a seguir ao trabalho. Apareceu também o beijo de boa noite, juntando-se o bom dia, ao acordar. Previsivelmente, pouco tempo depois veio também o «tenho saudades tuas». Tornaste-te, numa semana, tudo o que a mulher comum deseja. Em poucos dias, repetiste o quanto gostavas dos meus beijos, desejaste levar-me a todos os restaurantes e sítios que conhecias e mencionaste como os amigos, naqueles dias, tinham passado para plano B. Numa semana, tinha passado para o topo do Abecedário.

Ser cortejada alimenta-nos o ego. Ser bem cortejada, desperta-nos a alma. E assim decidi que tinha de te conhecer o corpo, para perceber se te podia entregar a alma. Programámos a fuga perfeita. Como dois amantes que antecipam horas de prazer intenso. E, a meio da semana, a seguir ao trabalho, o mundo passou a existir, só ali, naquele quarto de hotel, com música ambiente e luzes que convidavam à intimidade. E intimidade foi a palavra de ordem. Chegara a hora de te tocar o corpo. Despi-me. Despiste-te. Procuraste-me na ponta dos dedos. Desenhaste-me, com beijos, naquele corpo desnudado prestes a ser saciado. Tocaste-me no corpo. Não me resgataste a alma. E, naquele quarto de hotel, soube-o. Soube que não passaríamos de dois corpos que se cruzaram, que se tiveram e que, ali, iam condenar a sua história. Quando o toque não tira o fôlego, quando a respiração não te falha, quando a pele não grita, sabes, instantaneamente, que a alma, afinal, não pertence ali, àquele corpo disposto a emprestar-te umas horas de prazer. Tocar um corpo, por fora, não é sinónimo de despir um corpo por dentro.

O corpo pode ser perfeito. O primeiro encontro um sucesso. Um beijo pode saber a mel e o mundo pode estar aos teus pés. Mas, quando um corpo não despe a alma, quando o toque não te arrepia a pele, permanecerás nua por fora, mas estarás sempre vestida por dentro.

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JÚLIA DOMINGUES, a JUX
Tem 38 anos. É solteira e igual a si mesma. Licenciou-se em Direito, sendo Jurista, mas a mais sábia aprendizagem foi aquela que a camaradagem desses tempos trouxe — e que dura, na maioria, até hoje. Tem um refúgio que gosta de pensar que é secreto: Braga, Gerês, a terra dos seus pais. Desde os 25 anos que diz: «Qualquer dia, piro-me de vez para o Norte. Quando for grande.» Mas nunca se pira, apesar de já ser grande. Adora tudo o que seja trabalhos manuais e o desenho é, sim, a sua verdadeira paixão. Tem fobia a andar de avião. E acredita no amor, embora não em coisas especiais. Afinal, não é preciso que ele venha de cavalo branco.