Vamos a mais uma guerra, mano?

Texto vencedor | Desafio «Legenda-me»

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Fotografia © Ryan McGuire | Cartaz © Laura Almeida Azevedo
Fotografia © Ryan McGuire | Cartaz © Laura Almeida Azevedo

Hoje, estou a tentar compreender como te amo tão incondicionalmente. Hoje, estou a tentar compreender como era capaz de tudo por ti e pelo teu sorriso. Há amores tramados e o nosso é um deles.

Tão tramado que te consigo amar mesmo quando colocas um copo de água na porta do meu quarto para me molhar completamente assim que lá entrar. Como é que te amo, mesmo que, naquele momento, tivesse vontade de te estrangular?

Tão tramado que te consigo amar mesmo quando discutimos pela divisão das tarefas domésticas, mesmo quando desarrumas o que acabei de arrumar, mesmo quando me chateias tanto que me apetece desfazer-te em mil pedacinhos.

Tão tramado que te consigo amar mesmo quando me deito a jurar a mim própria que nunca mais falo contigo e que nunca volto a usar as minhas palavras para dizer que tenho saudades tuas.

Tão tramado que te consigo amar mesmo quando vamos ao shopping e passo duas horas atrás de ti, coberta, até à cabeça, com as roupas que vais experimentar, mas que, no final, odiaste e não compraste.

Há amores tramados e o amor de irmãos é um deles. Talvez mais tramado ainda quando se é uma irmã mais velha a lidar com a idade da parvoíce do irmão mais novo. Aquela idade em que eles estão a sair do armário, mas não admitem. Aquela idade em que precisamos de usar a casa de banho, mas temos lá o nosso irmão mais novo a analisar se tem alguma ponta de cabelo fora do sítio ou se há alguma parte do corpo que não tem perfume. E, sim, eu sei que, assim que leres este texto, vais ter uma vontade gigantesca de me espancar, porque não gostas que te diga que estás a sair do armário, muito menos que conte os teus segredos para “engatar” as raparigas. Sei, também, que te achas muito crescido. Mas, lamento, serás sempre um pequenino para mim.

E, agora, vamos a mais uma guerra, porque também detestas que te chame de pequenino.

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RAQUEL FERREIRA, a engenheira
É de uma aldeia perdida no norte do país e ambiciona ser mestre em Engenharia Civil. No percurso, apaixonou-se pelas palavras e escreve. Sobre tudo. Sobre nada. Ainda não é tudo o que quer ser, mas luta todos os dias por isso.