Renascer das cinzas

Uma humilde homenagem

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Fotografia © Raquel Ferreira | Design © Laura Almeida Azevedo
Fotografia © Raquel Ferreira | Design © Laura Almeida Azevedo

O silêncio sepulcral impera agora. Olhos vermelhos, inchados, olham incrédulos em redor. Não existem lágrimas suficientes. Esgotaram-se. Os braços caem ao lado do corpo sem forças. Pelo cansaço, pelo desânimo. As costas arqueadas pelo peso que, agora, carregam. E agora?

Onde havia vida, há morte. Onde antes havia um lar, restam escombros. Onde antes prevalecia a cor, agora dominava o negro.

A terra fumega. Ainda está quente, mas o que se avista congela a alma. O crepitar das chamas, o som medonho das labaredas ainda ecoa nos ouvidos. O cheiro a fumo está-lhe entranhado na pele. A cinza cai incessantemente. São as lágrimas da terra dorida. Sangrou toda a noite, fustigada pelo inferno que desceu montanha abaixo numa aliança diabólica com o vento. Os corpos estão esgotados de dias de luta. Os olhos querem fechar e esquecer, por momentos, o pesadelo.

O incêndio voraz estava agora controlado. Ou, se calhar, desistiu por já não haver mais o que engolir. Foi para outras bandas roubar o trabalho e os sonhos de outras vidas. Aqui, já não sobrava nada. Foram-se bens. Foram-se memórias. Ficou o vazio. Ficou a dor.

Fala-se em reconstrução. Fala-se em apoios. Prometem-se mundo e fundos. Vende-se esperança ao desbarato. Ouvem-se dezenas de opiniões sobre o que estava mal e o que tem que mudar, sobre culpados e sobre prevenção. A este homem já nada interessa. Sabe que tudo isto, daqui a uns dias, pouco vale. Sabe que o filme vai repetir-se no futuro, que as palavras também. Já não é a primeira vez que sente o calor emanado do fogo a queimar-lhe a pele. Já viu e ouviu muita coisa. Mudam-se as figuras, mas a cantiga é a mesma. Ele é que perdeu tudo o que foi erguendo com os anos. Só acreditará vendo.

Sabe quem lutou, com ele, contra o fogo. Homens que, daqui a uns dias, serão esquecidos. Se lhes dessem a devida importância não eram pagos ao preço da vergonha. Soldados de uma guerra contra um inimigo maior do que eles. David contra Golias. Para estes guerreiros não há despojos de guerra para dividir, não sobra nada quando o trabalho está feito. Muitas vezes, a vitória, quando chega, é amarga. Até pode haver quem ganhe com isto, mas eles não. A eles só lhes podia agradecer. Pudesse ele mudar leis e vontades e faria bem mais do que isso. Estes guerreiros, voluntários ou não, merecem muito mais. Também eles são vidas.

O homem suspira profundamente, ergue a cabeça e endireita as costas. Há de renascer das cinzas, se não lhe faltarem as forças. Ainda há quem ajude. Não está sozinho. Ainda há quem, sem pompa e circunstância, não prometa, faça. Assim espera.

Volta as costas àquela que foi a sua casa. Já não está a fazer nada ali. As feridas do corpo estão tratadas. As outras logo se vê. Caminha em frente. Dá uma palmada nas costas do paramédico, um toque no ombro do polícia, faz continência ao militar, dá um aperto de mão ao vizinho e um abraço ao bombeiro. Todos exaustos. «Obrigado», diz o homem a todos, de sorriso no rosto e tristeza no olhar.

Quanto a todos os que perderam os seus lares, os seus haveres e até aqueles que perderam o seu sustento, não havia nada que pudesse dizer para os consolar. Sabia-o. Afinal, ele era um deles.

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ANA PEREIRA, a inquieta
Nasceu numa noite estival, mas tem alma outonal. Convive com os números, mas encontra refúgio nas palavras. Aparenta serenidade, mas governa-a uma mente deveras inquieta. Se lhe perguntarem, é assim que se define a si própria. Aliás, estas foram palavras dela.