O diz que disse

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Fotografia © Sofia Almeida | Design © Laura Almeida Azevedo
Fotografia © Sofia Almeida | Design © Laura Almeida Azevedo

«Aquela ali faz tudo para dar nas vistas.» «Ela só está bem, porque se casou com um homem rico.» «Coitada! É uma fútil. Sabe lá o que é a vida.» «Foi passar um fim de semana fora, deixou os filhos com os avós, enfim… Que rica mãe!»

Quantas vezes já ouvimos comentários depreciativos deste género? Pasme-se: comentários, na sua maioria, vindos de mulheres.

Mulheres que criticam outras mulheres. Mulheres que canalizam as suas frustrações para outras mulheres. Mulheres que não são capazes de se sentirem felizes, solidárias com as conquistas das demais. Mulheres que criticam rápida e ferozmente, formando opiniões em dez segundos apenas. Mulheres que fazem os seus erros e cometem os seus pecados, mas que estão sempre lá para serem as primeiras a dar a facada. Nós, mulheres, conseguimos ser mais implacáveis com o nosso género do que muitos homens.

Repararem que são poucas as mulheres que se elogiam umas às outras, gratuitamente e de forma sincera, a não ser entre amigas (e, por vezes, nem assim conseguem ser sinceras).

As mulheres também são machistas umas com as outras. O feminismo não evolui se não pararmos de ver as nossas diferenças como pontos de intrigas e conflitos.

As mulheres criticam facilmente quem tem um casamento infeliz, porque a culpa é da mulher que deixou que isso acontecesse. Se a mulher é traída, é porque não se empenhou o suficiente para agradar o marido. Não se cuidou. Não tinha rédea curta (uma série de disparates pegados, a mulher é sempre culpada). Se o filho é hiperactivo, é porque a mãe não lhe deu educação. Se a mulher é vaidosa e gosta de se cuidar, é porque é fútil e não tem coisas mais sérias em que pensar. Se a mulher é bonita, não pode ser inteligente. Se a mulher vai passar um fim-de-semana fora e deixa os miúdos com os avós, é uma mãe desnaturada. Se a mulher está solteira, é porque ninguém a atura e tem um feitio difícil.

Basta de sermos assim umas com as outras. Basta de criticarmos o que vestimos, o que compramos, o que fazemos, o que comemos. Cada qual tem o seu feitio, a sua personalidade, a sua experiência. Cada qual deve ser respeitada como é, por gostar do que gosta, por vestir o que lhe dá na real gana.

Cada qual deve respeitar o trabalho, a família, as escolhas das outras mulheres. Cada qual deve respeitar a história de cada uma.

Quem está em constante crítica aos outros encontra-se em grande défice moral e emocional. É mesquinho e infeliz.

Criticar negativamente é contribuir para relações tóxicas. É de lembrar que as nossas atitudes geram atitudes. Portanto, vamos ser mais altruístas, vamos ser mais amigas umas das outras, mais solidárias umas com as outras. O que falamos e o que fazemos são espelho daquilo que somos. Quem está satisfeito com a sua vida não pratica a maledicência e não compactua com ela. Se estamos em paz interior, não queremos destruí-la com estas ações tóxicas, que não são saudáveis para nenhum dos envolvidos, nem para quem nos ouve.

Todas nós já criticámos. Todas nós já fomos mazinhas com outras mulheres. Umas vezes conscientes, outras nem tanto. Todas nós já fomos má-língua. Faz parte do ser humano, diria eu, por questões de insegurança, medo, ciúme ou até mesmo necessidade de aceitação por parte dos outros. Mas o ser humano vive em constante mutação, evolução, logo, por consequência, temos de evoluir. Cabe-nos a todas tentar melhorar este comportamento, tentar modificar, sermos melhores para nós mesmas e para os outros.

As perguntas que deixo são: Estamos aqui para contaminar ou para acrescentar algo de bom? Que tipo de pessoa queres ser? Aquela que dá algo de bom, ou aquela que intoxica e contamina?

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SOFIA ALMEIDA, a professora
É feita de sonhos, de saudades, de amor. É feita de coragem, de abraços, de risos e de gargalhadas. É feita de bom humor e de algum mimo também. É feita de uns dias melhores e outros assim assim. É um pouco do que lê, do que vê, do que ama, do que guarda. É também um pouco daqueles que ama, daqueles que ouve, daqueles que estão aqui, bem dentro, no seu coração. É feita de algumas fraquezas, algumas conquistas, alguns desafios. É feita de um amanhã, de um hoje e de um ontem, que já passou, mas que faz ainda parte de si. É a Sofia.