Quem sabe, um dia?

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Fotografia © Andreas Rønningen | Cartaz © Laura Almeida Azevedo
Fotografia © Andreas Rønningen | Cartaz © Laura Almeida Azevedo

Encontrei-te, um dia. Não que não te tivesse visto antes, muitas vezes. Quase todos os dias, aliás, e durante tantos anos. Eras divertida. E linda…. Os teus olhos e as tuas mãos faziam-me derreter. E o teu sorriso, oh, o teu sorriso…

Um dia, aconteceu. No regresso de uma viagem adormeceste com a cabeça encostada no meu ombro. Sim, quase te babaste… mas que importa? Sentir o teu corpo junto ao meu e o teu perfume tão junto a mim deixou-me em êxtase. Primeiro, surpreso: como podia ser possível? Mas, depois, decidi desfrutar. E nem me mexia para que não acordasses e deixasse de te sentir.

A partir desse dia, deixei-me esbardalhar a teus pés.

A cumplicidade entre nós foi crescendo. Levei-te a conhecer os sítios mais queridos para mim. Partilhei contigo os meus refúgios. Passeámos na praia, e sentámo-nos na areia, a ver o pôr do sol e a apreciar as ondas do mar. E fizemos eternas caminhadas junto ao rio. Gostavas de observar as gaivotas que pairavam sobre o rio. Dizias que te davam a sensação de liberdade. Querias ser como elas. Querias voar… Mas não te deixavam.

Num desses dias, passeávamos no pontão e paraste, junto à balaustrada. Começaste a chorar. Não percebia porquê. Queria agarrar-te, abraçar-te, mas tive medo que me interpretasses mal. Perguntei-te porque choravas. Simplesmente, abanaste a cabeça e permaneceste em silêncio. Sentia-me sempre nervoso ao pé de ti.

Infelizmente, também tinhas mau feitio. Basicamente, eras muito exigente, com os outros, mas, sobretudo, contigo própria. Na realidade, eras muito insegura. Além disso, eras imprevisível. Tanto estavas bem disposta e doce, como muitas vezes irrascível.

Os ciúmes eram obsessivos em ti… e toldavam-te o humor. Os teus ataques de fúria quase me fazia perder a cabeça. Sim, tenho de confessar que, algumas vezes, me metias medo. Parecia que cada coisa que dizia ou fazia estava sempre mal. Havia demasiados mal entendidos. Não aguentava mais, apesar de te adorar.

Afastámo-nos, cada vez mais… Entregaste-te ao trabalho.

Conheci-te um dia… e perdi-te. E sinto a tua falta. Das nossas longas conversas. Dos nossos longos passeios. Das fotos que tirámos. E de encostar a minha cabeça ao teu peito, sentir a tua respiração e ouvir o bater do teu coração. E de agarrar as tuas mãos suaves nas minhas.

Perdi-te para sempre… Mas continuo a adorar-te.

E não perco a esperança… Talvez, um dia, noutra encarnação, nos encontremos e seja possível estarmos juntos.

Tenho saudades tuas.

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CARLOS DINIZ, o idealista
É informático, mas as letras também o assistem. Adora ler. Lá porque esta é a sua primeira experiência na escrita, não se deixa intimidar. Os desafios são para isso mesmo. Amante do que é natural, aprecia as coisas boas da vida. Acredita que «os sonhos comandam a vida» — e, aqui entre nós, comandam mesmo.