Dois amantes da vida

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Ilustração/Cartaz © Laura Almeida Azevedo
Ilustração/Cartaz © Laura Almeida Azevedo

Acordei e olhei para a vida. Revi o passado e senti o presente. Lembrei-me de que tu existias. Que eras mais do que um simples sonho. Eras a realidade do que, todos os dias, deixavas em mim.

Olhei o presente. Vi as horas no relógio esquecido na parede. Não precisei de me preocupar com o dia do calendário, porque esse era só mais um, entre tantos já vividos. Um a mais para acrescentar à minha vida. O dia em que percebi que, um dia, te tinha amado.

Sim, lá atrás no tempo, num dia de que já não me lembro, eu amei-te. Deixei que o meu coração desse a mão a essa ilusão. Por muito que a minha alma nunca o tenha admitido, houve um dia em que te amei. Um dia em que o meu corpo desejou ser teu. Um dia em que, nos meus sonhos, se desenharam algumas linhas de uma paixão que sonhou com um futuro.

Só que esse dia é tão longínquo, que já não o consigo temporizar no calendário da minha memória. Essa foi apenas uma ilusão passageira. Um daqueles sonhos que sonhamos e do qual ao acordar já não lembramos. Foi assim que te amei, num daqueles momentos em que o meu coração se faz de tonto para não ver a realidade. Ele sonhou-te sem querer dar ouvidos à verdade.

E hoje, ao acordar, revivi esse passado em que julguei que te continuaria a amar. Em que sonhei que poderiam existir juramentos. Em que me imaginei a comemorar as nossas datas. A festejar aqueles dias em que seríamos felizes e que a nossa memória iria guardar. Pequenos detalhes que dão vida às grandes paixões.

Nesta viagem ao passado, senti o sabor do dia de hoje. O perfume do presente que está entranhado em mim. Lembrei que tu existias e não eras só um sonho.

E percebi que o meu coração não se enganou. Tu és e serás o amor mais real da minha vida. O único amor que veio para ficar na minha vida. O que já foi passado, que hoje é presente e que terá sempre futuro. Tudo porque és um amor diferente dos outros.

És um amor em que a paixão não significa desejo. O nosso amor é a pureza de dois corações que se entendem. Dois corpos com histórias vividas, que sentem as dores um do outro. O nosso amor é a troca de mimos entre dois corações carentes, que se revoltam contra o mundo que construiram à sua volta. Dois corpos que querem derrubar as barreiras dos seus medos.

Somos dois amantes da vida, sem precisarmos que os nossos corpos se unam para sabermos o que cada um sente.

Hoje, eu confirmei que o nosso amor é eterno. O nosso amor não morre. Eu sempre saberei ler as tuas dores no teu olhar. Tu sempre confortarás o medo que se esconde no meu sorriso. Juntos ou separados, iremos continuar a pertencer um ao outro.

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ANGELA CABOZ, a miúda gira
Nasceu em Tavira há 49 anos. Desde a adolescência que é uma apaixonada pela leitura, pela escrita, pelo cinema e pela música. Escreve sobre sentimentos e, nas palavras, reflete a maneira de ver e de sentir o mundo. Em 2014, realizou um sonho: a publicação do seu livro «À procura de um sonho». Desde então, tem participado em várias obras coletivas.