Queres ser minha amiga?

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Fotografia © Annie Spratt | Cartaz © Laura Almeida Azevedo
Fotografia © Annie Spratt | Cartaz © Laura Almeida Azevedo

É quase sempre assim que começa. Mal aprendemos a juntar as letras do abecedário, investimos nos tão preciosos bilhetinhos dos tempos da escola primária. Estas são talvez as primeiras mensagens que ousamos escrever, fora do plano nacional de educação.

— Queres ser minha amiga? Sim? Não ou talvez?

São estas as opções que nos são dadas. O «Queres namorar comigo?» também fez parte da lista de recados em bilhetinhos. Mas vamos deixar esses recados para mais tarde.

Hoje, vou começar pelo princípio. Até porque, antes das borboletas na barriga, vem a amizade. Antes de sabermos o que é amar, temos de saber o que é gostar. Antes de sabermos o que é receber, temos de aprender a dar. Antes de sabermos a que sabe um beijo nos lábios, temos de saber apreciar um beijo no rosto. E, por isso mesmo, hoje, seguiremos a ordem natural das coisas. Fiquemos, portanto, pelo primeiro dos bilhetinhos.

São aqueles papelinhos amarrotados — que, muitas vezes, voaram para debaixo das carteiras da escola, vindos não sabemos bem de onde — que nos indicam o caminho que queremos trilhar. É, ali, que fazemos as primeiras escolhas. Mesmo que, nessa idade, ainda não tenhamos a real perceção do peso que as nossas escolhas possam vir a ter. A verdade é que é nessa altura que começamos a definir quem somos, quem queremos ser e quem queremos que nos acompanhe e que faça parte de nós.

Existem tantas definições de amizade, quantas as pessoas que tomamos por amigas. Há os amigos verdadeiros, os amigos dos copos, os amigos irmãos, os amigos conhecidos e os só amigos. E de certeza que me esqueci de uma série de categorias que alguns de nós têm no seu catálogo. Para quê esta necessidade de categorizarmos os amigos? Se é amigo, é amigo. Não deveriam existir subcategorias. No entanto, desconfio que o caso é muito mais complexo do que possa parecer. E, a bem da verdade, não me cabe a mim estar a por em causa conceitos que já eram usados pelos nossos avós.

— Diz-me com que andas e dir-te-ei quem és!

Já se ouve isto há muito, não é? E, como não é justo falar das vossas amizades, vou falar das minhas. Às minhas amizades dirijo estas palavras. Lembro-me de cada um de vocês! Mesmo que não vos fale há anos, por vos ter perdido o rasto ou por nos termos afastado, devido às circunstâncias da vida. Lembro-me de quase todas as histórias que vivemos — e só não arrisco dizer que me lembro de todas, porque a idade já não perdoa.

Lembro-me de quando fugi — à revelia da minha mãe — para o parque infantil, e caí numa poça de água, molhando o vestido de domingo, e tu, amiga, me emprestaste a tua casa para secar o vestido, tendo evitando um sermão daqueles.

Lembro-me de dividir a coragem contigo, amigo, e fumar o primeiro cigarro, seguindo-se dois minutos de tosse.

De ti, amiga, lembro-me de ficares comigo até às 6 da manhã, dentro do carro, a ouvir as minhas desilusões amorosas.

E de ti, amigo? De ti, lembro-me de não me teres deixado conduzir, quando já não estava em condições para o fazer. Hoje, continuo viva para contar esta história.

E contigo? Contigo, amiga, soube-me, maravilhosamente, bem partilhar aquela garrafa de vinho, com a qual brindámos à amizade.

São tantas as histórias, as vivências, as experiências, as gargalhadas e os conselhos partilhados que coleciono no meu álbum de amizades, que estar a mencionar nomes ou categorias seria, extremamente, injusto para cada um de vós.

Assim, limito-me a agradecer a todos.

Todos vós, sem exceção, fazem parte de mim. Do que eu sou. Fazem parte das minhas escolhas. E, se assim é, é porque vos quis levar comigo. Para sempre. Mesmo que já não estejamos juntos fisicamente. Um dia, foram importantes numa escolha qualquer da minha vida. Mesmo que tenha sido apenas na partilha de uma boa gargalhada.

E foi por isso que, um dia, te chamei de amigo. Porque, tal como nos bilhetinhos daquele tempo, contigo fiz uma cruz no quadradinho que dizia «sim».

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JÚLIA DOMINGUES, a JUX
Tem 38 anos. É solteira e igual a si mesma. Licenciou-se em Direito, sendo Jurista, mas a mais sábia aprendizagem foi aquela que a camaradagem desses tempos trouxe — e que dura, na maioria, até hoje. Tem um refúgio que gosta de pensar que é secreto: Braga, Gerês, a terra dos seus pais. Desde os 25 anos que diz: «Qualquer dia, piro-me de vez para o Norte. Quando for grande.» Mas nunca se pira, apesar de já ser grande. Adora tudo o que seja trabalhos manuais e o desenho é, sim, a sua verdadeira paixão. Tem fobia a andar de avião. E acredita no amor, embora não em coisas especiais. Afinal, não é preciso que ele venha de cavalo branco.