A dor da tua ausência

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Fotografia © Helena Isabel | Cartaz © Laura Almeida Azevedo
Fotografia © Helena Isabel | Cartaz © Laura Almeida Azevedo

Era já noite cerrada. Chovia com uma intensidade desmesurada. Tinha chegado muito tarde naquele dia e, estranhamente, tinha aquela sensação de que algo não estava bem.

Ao levar as chaves à porta, hesitou. Estava tudo silencioso. Ana deveria estar já a dormir, mas ela até se deitava tarde e costumava esperar por ele.

Ao entrar na sala, viu que estava uma folha em cima da mesa, dobrada em quatro. Não poderia ser bom, pois sentiu-se percorrido por um estranho arrepio.

Percorreu as divisões. Ana não estava em nenhuma. «Mas que diabo?», pensou. «Onde é que ela se meteu?» Deixou-se cair pesadamente no sofá, puxou de um cigarro — andava a fumar demais, ocorreu-lhe, mas isso agora não interessava nada —, desdobrou o papel e leu…

«Tu sabes porquê.» E era apenas isto. Era a letra dela. Conseguia ainda sentir-lhe aquele  perfume doce que teimosamente sempre ficava em tudo o que ela tocava.

Olhou para o telemóvel. Nada, nem uma telefonema, nem uma mensagem. Nada. Apenas aquele bilhete e o silêncio interrogativo e desconcertante.

E ele sabia, sabia porquê. Sabia que tinha levado Ana ao limite das suas forças. Deixara a janela da sua vida aberta demasiado tempo, e agora a tempestade tinha entrado, tinha-se instalado e seria difícil conseguir voltar a fechá-la.

Tomou vários comprimidos para dormir com um trago de whisky. Não queria pensar. Não queria sentir. Apenas esquecer-se daquela tempestade que o assolara.

Acordou a meio da noite. Tinha frio. O corpo doía-lhe. Tentou levantar-se, mas o corpo parecia não lhe obedecer. Tinha tanta sede. Esbarrou contra o candeeiro, que caiu com estrondo, estilhaçando a lâmpada. «Raios», praguejou. «Malditas porcarias!» Desistiu da água e serviu-se de mais whisky.

Já a manhã ia alta quando acordou. A boca amargava-o. Sentia os olhos a queimarem. A cabeça parecia não parar de rodar. «Demasiada bebida», pensou. Felizmente, era fim de semana. Não teria coragem de ir para o escritório, caso contrário, e fingir estar tudo bem.
Tinha nódoas negras no corpo nos sítios onde tinha esbarrado contra as coisas na noite anterior. Olhou-se ao espelho e resmungou: «O que é que Ana via em ti? Estás uma lástima. É bem feito ela ter ido embora. Nunca a mereceste. Nunca.»

Veio-lhe à memória palavras de Ana: «Nunca disse que amo sem ser verdade e nunca me fui embora para voltar.» E ela dissera-lhe que o amava e que sabia que ela não ia voltar. Conhecia-lhe a determinação. Podia morrer por dentro, mas jamais voltava atrás. Ela era assim, decidida. Para Ana apenas havia sim e não, o talvez nunca fora opção e ele tinha-a mantido num morno talvez durante demasiado tempo, fazendo dela opção e nunca prioridade.

E, por isso, um dia ela partiu, sem deixar sombra do seu rasto, deixando-o destroçado e desconcertado. Mas isso também ela estava. Doía-lhe na alma a cada dia que passava.

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HELENA ISABEL, a misteriosa
Nasceu em dezembro de 1983. Diz-se uma «exploradora da vida». Gosta de ler, de escrever e de pintar. Não da pintura dos guaches e dos pincéis. Mas da pintura com as palavras. É apaixonada, irreverente e sensível a tudo o que a rodeia. Prefere um segundo de realismo a uma eternidade de sonhos.